Por Chiara Lombardi — O recente posicionamento de Levante reacendeu o debate que paira sobre o Eurovision e a presença de Israel na competição: a cantora afirmou que, se vencer o Festival di Sanremo, não aceitará representar a Itália em Viena como forma de protesto. Em resposta ao cenário político e ao clima de incerteza, a Rai anunciou que pretende sondar antecipadamente as intenções dos participantes, numa tentativa de evitar surpresas e improvisos.
A proposta foi colocada por Claudio Fasulo, vicediretor da Direzione Intrattenimento Prime Time da Rai, que sugeriu um levantamento informal junto às discográficas e aos artistas para saber quem estaria disposto a ir a Viena caso se tornasse o representante italiano. A ideia é simples: conhecer o terreno antes da manhã seguinte ao final do Festival, evitando a cena do ano passado, quando o vencedor Olly demorou dias a tomar uma decisão e acabou por ceder o posto a Lucio Corsi.
O gesto de Levante expõe o que já não é segredo: o Eurovision deixou de ser apenas um palco musical e transformou-se num espelho — político e simbólico — do nosso tempo. A decisão de artistas em aderir ou recusar uma representação é, portanto, parte de um roteiro oculto, onde a cultura se entrelaça com a memória e com pressões geopolíticas.
O problema, contudo, não é apenas italiano. A edição de 2026 do Eurovision, marcada para Viena de 12 a 16 de maio, já foi abalada por um efeito dominó: Espanha, Países Baixos, Islândia, Eslovênia e Irlanda anunciaram que vão boicotar a competição após a aceitação da inscrição de Israel pela UER (União Europeia de Radiodifusão). Apelos por sua exclusão, motivados pela guerra em Gaza e por alegações de crimes graves, não prosperaram — em contraste com a exclusão da Rússia em 2022 após a invasão da Ucrânia.
Além das preocupações humanitárias, pairam dúvidas sobre a transparência dos mecanismos de votação do evento. Nos bastidores, ainda se discute o impacto dessas controvérsias na legitimidade do resultado, sobretudo depois da remontada da cantora israelense Yuval Raphael no ano anterior. A UER tem defendido o caráter apolítico do contest; contudo, para muitos observadores, essa pretensão de neutralidade já se mostra insustentável.
Em Roma, a resposta da Rai às declarações de Levante foi pragmática. Segundo Fasulo, a posição da artista é «rispettabilissima», mas as primeiras sondagens indicam que a maioria dos concorrentes pretende aceitar a convocação para Viena se for o caso. As consultas, porém, não terão caráter definitivo: serão um instrumento para preparar cenários e minimizar riscos logísticos e institucionais.
Como analista cultural, vejo essa movimentação como um reframe do entretenimento moderno: quando um festival musical ganha dimensão política, ele deixa de ser só espetáculo e passa a encenar, em pleno palco, as tensões do presente. A decisão de um artista de participar ou de recusar não é apenas política; é também um ato de narrativa — uma escolha sobre que história se quer contar no grande espelho europeu.
Resta saber como o público e os produtores vão reagir. A sondagem da Rai pode reduzir o risco de indisponibilidades de última hora, mas não apaga o dilema ético que muitos artistas enfrentam. Em suma, o que se desenha é um Festival de Sanremo que, mais do que revelar um vencedor musical, poderá revelar também o roteiro moral que atravessa a cultura pop contemporânea.






















