«É das coisas simples que nascem revoluções», diz Leo Gassmann, num tom que mistura a serenidade de quem observa o mundo e a determinação de quem escreve canções como mapas pessoais. Aos 27 anos, o cantor e ator chega ao Sanremo com Naturale, um tema que promete ser a sua declaração de afeto numa época em que, mais do que nunca, a música aparece como espelho do nosso tempo.
Em entrevista serena, Leo Gassmann conta que no dia 10 de abril lançará o terceiro álbum, Vita vera paradiso, uma virada para sonoridades que incluem country, folk e world music — gêneros que, apesar de menos populares nas paradas italianas, representam “meus gostos e me dão identidade”, diz ele. É um disco que busca a pureza da expressão: “É um disco puro, sincero que faz sair a minha humanidade”.
Formado em família de artistas, Leo não foge ao peso do sobrenome, mas transforma essa herança em lealdade às suas raízes e em disciplina. Evoca o conselho do pai — transmitido pelo avô —: «se te encontras num caminho, melhor a subida do que a descida, dá mais satisfação». Essa imagem do trajeto, do esforço que constitui mérito, atravessa suas escolhas. Ele admite estar se preparando com rigor para o palco: “Estou treinando e não bebo há dois meses”.
Entre a música e a atuação, Gassmann encontra duas faces do mesmo espelho: a primeira, luminosa e positiva, que ele cultiva todos os dias; a segunda, introspectiva e tempestuosa, que encontra saída na interpretação. Essa convergência, explica, faz parte do mesmo roteiro da sua identidade artística.
No debate público mais áspero dos últimos meses, sobre boicotes ao Eurovision pela presença de Israel, Leo oferece uma reflexão que se posiciona fora da polarização simplista. “Veo la música come lo sport. Le Olimpiadi erano un evento che permetteva di fermare le guerre per un periodo e dialogare”, diz ele, lembrando que a arte e o esporte já funcionaram como pausas civilizatórias. Ele afirma ser pro-Palestina e solidário aos mais frágeis, mas questiona se impedir países de competir seja a resposta correta. “Alzare altri muri, chiudere al dialogo non lo è”, conclui. Em sua leitura, proibir a participação equivale a levantar barreiras num cenário histórico que precisa mais de pontes do que de muros.
Esta posição é, por si só, um reframe: trata-se de perceber a música como um espaço de encontro, um palco em que a diplomacia cultural pode operar mesmo em tempos adversos. Para Gassmann, a exclusão pode ter um custo simbólico alto — sobretudo para quem já não se sente representado pelos próprios líderes políticos.
No Festival ele retorna com maior consciência depois de ter vencido as Nuove proposte em 2020 e participado entre os Big em 2023. “A outra vez me doentei e foi tudo mais complexo”, recorda. Agora, com treino e foco, pretende entregar uma performance à altura do que seu percurso anuncia: uma voz que sabe ser contemporânea e atemporal ao mesmo tempo.
Como analista cultural, vejo em Leo Gassmann não apenas um nome na lista de artistas do momento, mas um indicador do roteiro oculto da sociedade: jovens criadores que, entre referências transatlânticas e raízes locais, constroem narrativas sonoras capazes de espelhar os conflitos e as utopias do nosso tempo. Em tempos de polarização, escolher cantar o amor pode ser uma forma discreta, porém poderosa, de resistência.






















