Por Chiara Lombardi — Quando um texto do século V a.C. continua a lotar plateias e a provocar debates, estamos diante de mais do que um clássico: é um verdadeiro espelho do nosso tempo. Assim pensa a encenadora Serena Sinigaglia, que dirige Lella Costa em Lisístrata, de Aristófanes, em temporada no Donizetti de Bérgamo, de 7 a 15 de fevereiro.
No princípio da leitura crítica está o paradoxo: que este texto seja tão frequentemente encenado indica não sua superação, mas a persistência das razões que o tornaram necessário. Para Sinigaglia, o pedido constante por Lisístrata é sintoma — e denúncia — de um mundo marcado por conflitos. A dramaturgia ancestral que propõe o boicote sexual das mulheres para forçar a paz não perde sua pungência; ao contrário, ganha releituras que expõem o roteiro oculto da nossa contemporaneidade.
A montagem inicia em Bérgamo após o sucesso no Teatro Greco de Siracusa. No espetáculo ao ar livre, a diretora contava com mais de quarenta intérpretes, um palco monumental e um coro expansivo para dialogar com milhares de espectadores. Para a versão indoor, a transposição exigiu um cuidadoso trabalho de reescrita: mantendo o respeito filológico pelo texto, a encenação foi redimensionada — elenco reduzido a sete atrizes e atores, adaptação dramática significativa, mas sem abrir mão do coro, que permanece como eixo rítmico e simbólico.
O desafio de transformar um fenômeno de arena em uma peça de sala é também um exercício de reframe — levar a energia coletiva do teatro grego ao íntimo da plateia contemporânea. O palco mais contido do Donizetti permite uma relação mais próxima entre intérpretes e público; por isso a temporada prevê nove apresentações sem interrupção. A proposta da Fundação Teatro Donizetti contrapõe-se ao consumo acelerado da cultura: insistir em reprises é oferecer à obra o tempo necessário para amadurecer e aos artistas a possibilidade de aprofundamento.
Essa crença de que o espetáculo só se completa com quem o assiste é outro fio condutor da montagem. “Um espetáculo existe quando chega à outra metade do nosso céu: o público”, poderia ser a máxima desta versão de Lisístrata. A peça se move, então, na tensão entre utopia e realidade: enquanto as mulheres encenadas almejam o reino da paz, a insistência da reencenação diz que, para além do palco, a guerra continua a ser um texto ativo.
Quanto à protagonista, Lella Costa — figura de presença vibrante e conhecida por seu comprometimento civil — parece escolha natural. Ao dividir a direção artística do Teatro Carcano com Sinigaglia, Costa traz para o papel uma combinação de compostura, elegância e clareza moral. Sua Lisístrata não é apenas líder política: é a mulher que decide defender a vida enquanto permite que o circo do mundo siga seu curso, expondo assim a tragicidade e a ironia do gesto.
Em tempos em que o palco funciona como espelho social, a montagem é convite a uma reflexão: por que continuamos a buscar no passado fórmulas que denunciam as mesmas violências? Talvez o teatro, como bom cineasta de memória, nos lembre que a repetição histórica é também chamada à ação. Ver Lisístrata hoje é, portanto, assistir a um refrão do nosso presente — e se perguntar se estamos dispostos a escrever um final diferente.






















