Por Chiara Lombardi — Em um movimento que parece mais um relançamento de arquivo do que uma reflexão crítica, Le Iene estrearam o spin‑off Le Iene presentano: Inside, idealizado por Davide Parenti e apresentado por Filippo Roma. A proposta oficial é ambiciosa na retórica: revisitar quase trinta anos de reportagens que, segundo a equipe, desenham “a fotografia de um país de extraordinária beleza e profundas contradições”.
O episódio, porém, funciona sobretudo como uma autocelebração — uma vitrine de melhores momentos que reitera uma narrativa autorreferente. Vemos reaparições e entrevistas históricas, com passagens por figuras como Giulio Andreotti, Gianfranco Fini, a jovem Giorgia Meloni e até Vittorio Sgarbi, ao lado de investigações conhecidas sobre os furbetti do cartellino, ministérios que não pagam taxas de lixo em Roma, evasão fiscal e segurança no trabalho. É uma seleção que realça o lado virtuoso do formato: o humor ácido, o formato irreverente, os repórteres que misturam entretenimento e jornalismo.
Mas o espelho que Le Iene apontam para a sociedade revela também os riscos do próprio repertório. A contradição central reside no que podemos chamar de método Iene: uma prática marcada pela agressividade nas abordagens, pela tendência a substituírem a magistratura em julgamentos públicos e pela construção de uma narrativa maniqueísta que separa o mundo em “vítimas” e “culpados”.
Os excessos não são anecdóticos. Casos como o de Roberto Zaccaria expõem o lado mais sombrio desse processo de “praça”: execração pública, pressa em condenar, e técnicas de exposição que desconstroem o limite entre reportagem investigativa e justiça midiática. Há também um histórico preocupante de divulgação de teorias e práticas sem base científica — do episódio Stamina às campanhas que semearam dúvidas sobre a segurança das vacinas ou apresentaram terapias alternativas como milagrosas, sem provas clínicas sólidas.
Essa deriva editorial ganha contornos inquietantes quando personalidades chamadas a comentar as matérias não oferecem um contraponto crítico irrestrito. Entre os convidados para refletir sobre as investigações “sérias” estiveram Massimo D’Alema, Luciano Moggi, Pilar Fogliati e, de forma particularmente sintomática, Alessandro Di Battista. A afinidade entre certas posturas romanas e o discurso de Di Battista ilumina um traço mais amplo: a capacidade do formato de alimentar e ser alimentado por um populismo midiático, um fenômeno que já analisamos como parte do mesmo roteiro que transformou comediantes em juízes e políticos.
Rai e o produtor parecem mirar no passado com nostalgia, reutilizando um magacine que, em seus melhores momentos, dialogou com preocupações legítimas do país. Mas nostalgia não é análise: repetir cenas de caça, perseguição e humilhação como espetáculo restaura um imaginário de justiça instantânea que pouco ajuda a sociedade a compreender e resolver suas contradições.
Como observadora do zeitgeist, vejo em Le Iene um espelho da nossa época — e também do risco de que esse espelho distorça. A cultura do espetáculo investigativo tem potência transformadora quando prima pela responsabilidade e pela verificação; quando não o faz, transforma-se numa narrativa rehecha que celebra a própria imagem em vez de aprofundar o debate público. O episódio Inside é, mais do que um encontro com o arquivo, um convite a perguntar: que tipo de memória jornalística queremos preservar?
29 de janeiro de 2026






















