Por Chiara Lombardi, Espresso Italia
Quando a cena pop se transforma num espelho do nosso tempo, os encontros às vezes revelam o roteiro oculto que liga gerações. É isso que acontece com LDA e Aka7even, dois jovens artistas que desembarcam no palco do Sanremo com a canção Poesie clandestine — faixa que antecipa o álbum conjunto homônimo, programado para sair em 6 de março.
A trajetória dos dois é um curioso plano-sequência: primeiro a admiração mútua, depois a amizade e, agora, a decisão de dividir um mesmo projeto artístico. “A estação desta história começou no fim dos nossos turnês, no verão passado — explicam —. Nos juntamos com produtores e autores, a canção nasceu. Olhámos um para o outro e pensamos: ‘por que não propor ao Festival?’”. Em apenas 16 dias, o disco ganhou forma. Apesar de terem trabalhos prontos individualmente, escolheram unir vozes e narrativas num só registro.
LDA (Luca D’Alessio), 22 anos, e Aka7even (Luca Marzano), 25 anos, carregam já a experiência do palco sanremense: “Quando fui ao Sanremo pela primeira vez tinha 19 anos, havia muita incoscienza. Agora estamos mais maduros”. Ambos passaram pela escola televisiva de “Amici di Maria De Filippi”: “Ela é a Madonna, vai nos vigiar. Ainda não a incomodamos, mas antes do Festival provavelmente vamos precisar de um conselho.”
O laço familiar também marca a narrativa. LDA é filho de artista: seu pai, Gigi D’Alessio, não estará no Ariston, mas acompanha com carinho. “Não posso levá-lo e sinto muito. Para os outros pode ser diferente, mas para mim ele é meu pai e o quereríamos perto nos momentos bons e ruins”. E a resposta de Aka7even é imediata: “Também o adoro, me entristece que não esteja presente”. Sobre conselhos, a confidência é quase cinematográfica: “Ele confia artisticamente em mim, no humano me diz coisas tipo: ‘coloque a echarpe, não pegue frio’”.
A presença de Napoli pulsa no DNA de ambos e ecoa no texto que levarão ao palco: “É uma cidade que te modela — dizem —. No refrão comparamos um ‘ela’ a uma Napoli sotterranea: estratificada, escondida, escura, mas cheia de vida.” Essa geografia emocional é o cenário onde a canção desenha camadas — um reframe da realidade onde memórias e superfícies se sobrepõem.
Na noite das covers, o presente se encontra com a tradição: convidaram Tullio De Piscopo para interpretar “Andamento lento”. O gesto tem peso simbólico — o músico celebra 80 anos pouco antes do Festival — e confere ao momento o brilho da lenda que passa o bastão para as novas gerações.
A convivência também fortalece o projeto: “Nos conhecemos há oito anos — contam —. Antes dos talent shows já gostávamos do trabalho um do outro, às vezes sem sequer saber de quem era a canção. Hoje moramos juntos em Milão, somos cinco em casa; é quase um campus onde nunca nos sentimos sós. Esse laço humano deu coesão ao projeto musical.”
Há admiração técnica e franqueza artística: “Com auto-tune ou sem, sabemos cantar — afirma LDA —. Aka está entre as vozes masculinas mais interessantes da Itália; para mim, só Mengoni está acima agora. Ainda não entendo por que o público não o notou mais: eu lhe roubaria a voz.”
Este dueto funciona como um microcosmo: união de caminhos, heranças familiares, a cidade como personagem e o encontro entre passado e presente. Em tempos em que o entretenimento raramente é somente entretenimento, LDA e Aka7even transformam o palco em um espelho que reflete identidade, memória e a semiótica de uma geração que busca sua própria trilha sonora.






















