Por Chiara Lombardi — Em um movimento que parece parte espelho do nosso tempo e parte roteiro cuidadosamente ensaiado, Laura Pausini confirma sua presença no palco do Ariston como coapresentadora de Sanremo. Depois de anos de rumores, a artista italiana aceitou o convite de Carlo Conti, mas deixa claro: voltar ao palco como concorrente não está nos planos.
A decisão, conta ela, nasceu de uma conversa com Conti: “Fino a febbraio dello scorso anno non avrei accettato. Conti mi ha chiamata, ci siamo incontrati e la sua calma mi ha colpita”. Pausini descreve a necessidade de ter ao lado alguém sereno que não aumente sua adrenalina — uma escolha que remete ao cuidado performático e ao “reframe da realidade” que tantos artistas hoje adotam para preservar a própria narrativa.
Antes de responder ao convite, a cantora procurou um conselho emblemático: Pippo Baudo. “Cosa stai aspettando? Sei pronta e te lo dico da un bel po’”, disse ele, segundo Pausini. O veterano e, em privado, o marido foram os únicos que souberam da decisão antes do anúncio; pais e filha só descobriram duas semanas antes, por temor de vazamentos.
O retorno ao palco, porém, será diferente. Pausini admite que não se sente à vontade para competir: “Io crescendo le ho sempre evitate e ora vado nel teatro che più mi fa tremare per farmela passare: lì non mi sono mai esibita al meglio e per questo non ci vorrò mai tornare in gara”. Em vez disso, ela quer que os verdadeiros protagonistas sejam os cantores: “Non voglio essere presentata con la lista dei premi vinti, mi ha rotto”.
No repertório de Sanremo, Pausini levará canções do novo álbum de covers Io canto 2, que sai amanhã e é um gesto de homenagem à música italiana e a artistas com raízes italianas. A capa do disco remete a uma figura de coragem: uma Giovanna d’Arco contemporânea — sem armadura, com uma “espada” formada por três microfones. “Non sono santa, anzi il contrario”, comenta com ironia; ainda assim, a escolha iconográfica aponta para a construção de uma nova figura feminina no cânone pop.
Sobre figurino, Pausini prepara-se para vestir Armani, e admite já antever as lágrimas ao lembrar de Baudo e do estilista que a apoiou no início da carreira: “Lui mi diede consigli di eleganza e mi disse ‘punta tutto qui’ indicando il viso”. O choro é uma possibilidade real — e isso humaniza a performance, transformando o palco em um cenário de transformação.
Ao ser questionada sobre antigos episódios, como a infeliz gag do accappatoio no Peru (2014), Pausini é clara: não quer reviver aquilo. E sobre o bate-boca com Gianluca Grignani — que reclamou por não ter sido citado no lançamento e por mudanças em versos de “La mia storia fra le dita” — ela afirma ter tentado diálogo: “Gli ho scritto tante volte, non mi risponde”. A cena é mais um fragmento do roteiro oculto da indústria musical, onde autoria, memória e circulação são disputadas.
Em relação ao Eurovision, Pausini afirma que participaria mesmo que a edição se realizasse em Israel, o que abre uma janela para discutir a música como palco diplomático e o papel dos artistas diante de questões geopolíticas: uma escolha que traduz a tensão entre a arte como ponte e as responsabilidades éticas do espetáculo.
Antes de subir ao palco, ela e Conti visitarão o Quirinale para se reunir com o presidente Mattarella — um gesto institucional que confirma o peso cultural e simbólico do Festival. Pausini chega a Sanremo com a precisão de quem redesenha sua própria história: a artista que atravessou décadas de visibilidade agora escolhe a mirar o presente sem perder a capacidade de emocionar.
Em suma, a presença de Laura Pausini em Sanremo é, ao mesmo tempo, um movimento pessoal de enfrentamento e uma declaração sobre como a música continua a ser o espelho e o palco onde se encenam identidades coletivas — a semiótica do viral encontra a tradição, e o público, mais uma vez, vê o roteiro oculto da sociedade ganhar forma em canções e silêncios.






















