Por Chiara Lombardi — Em um curioso encontro entre nostalgia e espetáculo, Las Ketchup voltam a ocupar o centro das atenções ao serem anunciadas como convidadas na noite dos duetos do Sanremo 2026, a pedido de Elettra Lamborghini. O trio espanhol — Pilar, Lola e Lucía — retorna para reacender o refrão que marcou o verão de 2002: Aserejé.
Filhas do mundo do flamenco, as irmãs escolheram o nome artístico Las Ketchup em referência ao pai, Juan Muñoz, conhecido como «El Tomate». O disco de estreia, Hijas del Tomate, trouxe Aserejé, um misto de flamenco e Europop com refrão de pronúncia quase cifrada e uma coreografia automática — um sucesso que, como uma nova Macarena, tornou a canção um daqueles fenômenos que funcionam como espelho do nosso tempo: viral, repetível e ritualístico.
O impacto foi global: o single alcançou o primeiro lugar em diversas paradas e ultrapassou a marca de 7 milhões de cópias vendidas. Mas, como todo one-hit-wonder, a trajetória subsequente foi um roteiro de altas e baixas. Em 2004, já haviam pisado no palco do Ariston como backing vocal de Danny Losito na edição do Festival de Sanremo, com a música “Single”, que terminou entre os últimos colocados.
Dois anos depois, em 2006, Las Ketchup representaram a Espanha no Eurovision com a adição da irmã Rocío, apresentando “Un Bloodymary” — outra referência ao imaginário do “tomate” — mas o resultado ficou aquém das expectativas: 21º lugar. Também o segundo álbum, homônimo, não replicou o êxito inicial.
O que torna essa história culturalmente interessante não é apenas o êxito passageiro, mas a forma como o trio encarnou o ciclo viral pré-redes sociais: canção, dança coletiva e memória coletiva. Em 2018, após um longo hiato, o grupo voltou aos palcos em formação de três, mas o retorno incluiu episódios constrangedores, como um show na Finlândia que durou apenas 22 minutos e começou com quase três horas de atraso — um setlist reduzido a três canções, incluindo o bis inevitável de Aserejé.
Mesmo assim, as irmãs não se renderam ao silêncio: em 2020 lançaram um single colaborativo com Valeria Rossi e, em 2023, foram convidadas ao programa I migliori anni. Agora, a convocação para Sanremo 2026 ao lado de Elettra Lamborghini põe o grupo diante de uma plateia europeia renovada — e de um público que convive com o reframe da nostalgia em forma de playlists, remixes e covers.
Há algo de dramático e poético nesse retorno: o refrão que outrora foi um enigma fonético se transforma hoje em dispositivo de memória coletiva, uma cena que revive o roteiro oculto da sociedade — como reaparecem ícones quando o presente precisa se ver refletido no passado. Veremos se o espetáculo em Sanremo é um gesto de celebração estético-musical ou um comentário sobre a impermeabilidade do hit pop à passagem do tempo.
Data: 23 de fevereiro de 2026.





















