Por Chiara Lombardi — Num gesto que transforma o palco de Sanremo num espelho das tensões políticas italianas, o presidente do Senado, Ignazio La Russa, pediu publicamente ao diretor artístico do festival, Carlo Conti, que reforce a participação do comediante Andrea Pucci como uma presença reparatória. A intervenção de La Russa reage ao imbróglio que nasceu após o convite inicial e a posterior renúncia do humorista.
Em vídeo publicado nas redes sociais, La Russa retomou as palavras de Conti durante a conferência de imprensa do festival — quando o apresentador afirmou estar «surpreso pelo alvoroço» gerado pelo caso. Conti disse que a participação de Pucci havia sido proposta «sem pressões de ninguém» e que o próprio artista decidiu não ir diante das «acusações, ameaças e agressões» recebidas por críticas de teor político. A partir daí, La Russa exige um gesto compensatório: «Espero algo mais do condutor do festival do que um simples ‘paciência, foi ele que decidiu’».
O apelo é claro: transformar a controvérsia numa reparação simbólica. «Há muitos modos de recompensá-lo», disse La Russa, «e cabe ao apresentador encontrar uma forma de tornar, de algum modo, a presença de Pucci efetiva». A expressão «presença reparatória» conjuga a ideia de restituir não apenas o espaço artístico, mas a honra pública do profissional que, segundo La Russa, sofreu uma injusta obrigação de desistir.
O caso, porém, não é apenas sobre programação televisiva: é um nó na semiótica do viral e da memória coletiva. Andrea Pucci foi alvo de fortes críticas por manifestações e piadas consideradas ofensivas — contra Elly Schlein, mulheres, homossexuais e migrantes — e por fotos nas redes sociais que alimentaram a controvérsia. Uma imagem publicada em comemoração ao acordo com Sanremo, na qual aparecia com o fundo de saia à mostra, foi removida após a chuva de reprovações. A comissão de vigilância Rai, por sua vez, citou o humorista como «visivelmente de direita, fascista e homofóbico».
Em defesa do comediante, a primeira-ministra Giorgia Meloni denunciou o episódio como uma «assombrosa guinada iliberal», posição que, mesmo assim, não impediu que Pucci justificasse sua saída: «não posso trabalhar nesse clima», teria afirmado, segundo relatos que circularam após a retirada.
Do ponto de vista do festival, as repercussões são práticas e simbólicas. Carlo Conti declarou que se trata de «seu último Sanremo» e falou sobre surpresas para as noites de gala — enquanto a discussão pública sobre o convite a Pucci acaba por transformar o evento numa arena onde se confrontam liberdade artística, responsabilidade pública e o papel da mídia na construção de reputações.
Como observadora cultural, proponho ver esse episódio como um pequeno roteiro do nosso tempo: Sanremo funciona como um palco-mundo, onde a música e o espetáculo cruzam-se com identidades políticas e memórias históricas. A solicitação de La Russa por uma «presença reparatória» é, em última instância, um pedido de reescrita simbólica — uma tentativa de alterar o desfecho do enredo público.
Resta saber se o apresentador tomará a iniciativa e qual será a resposta do público. Entre as luzes do Ariston e o ruído das redes, o festival segue sendo um termômetro cultural: o que se decide em seus bastidores ecoa muito além das noites de premiação.





















