Assista ao ponto de encontro entre crime, Estado e intimidade numa nova leitura televisiva: L’invisibile, a minissérie produzida por Pietro Valsecchi e dirigida por Michele Soavi, estreia em primeira exibição na Rai1 nos dias 3 e 4 de fevereiro. O projeto reconstitui os noventa dias que antecederam a prisão de Matteo Messina Denaro, o chefe da máfia siciliana que viveu na clandestinidade por mais de três décadas.
O ponto de vista escolhido é deliberado e significativo: não uma celebração do mito mafioso, mas a crónica do Estado em ação. No centro dessa narrativa está o trabalho dos carabinieri do ROS, e em particular da equipa liderada pelo colonnello Arcidiacono — que na ficção torna-se Lucio Gambera — interpretado por Lino Guanciale. «Não é uma série de máfia, é exatamente o contrário: aqui o ponto de vista é o do Estado», disse Guanciale na apresentação em Roma. A escolha de não usar nomes reais para os militares reforça a intenção: mostrar a dimensão humana e quotidiana daqueles que agem em primeiro plano, longe da glória fáustica.
Esse reframe — como um espelho do nosso tempo — desloca o foco do ritual do crime para o roteiro cotidiano dos que o enfrentam. Guanciale explica que a interpretação de Gambera evita «a retórica habitual do herói»: trata-se de pessoas com rotinas, dúvidas e responsabilidades que pesam tanto no uniforme quanto em casa. A normalidade dos heróis, nesse sentido, é a ideia-mestra da série: o heroísmo aparece na persistência, nas escolhas difíceis e nos sacrifícios silenciosos.
Ao lado de Guanciale, o elenco reúne rostos que dialogam com o presente cultural italiano. A cantora e agora atriz Levante assume o papel de Maria, esposa de Gambera, e descreve sua personagem como «a parte emotiva» do protagonista — uma presença que expõe como o trabalho operacional contamina o núcleo familiar, tensionando afetos e rotinas. É a estreia televisiva de Levante, que também se prepara para apresentar-se no próximo Festival de Sanremo.
Leo Gassmann, também com presença confirmada em Sanremo, vive o técnico de rádio da equipa: um jovem competente, mas vulnerável às inseguranças do mundo real. E no papel do capo mafioso está Ninni Bruschetta, completando o mosaico humano que compõe a representação da perseguição policial.
A narrativa concentra-se nos 90 dias que culminaram na operação de 16 de janeiro de 2023, quando a equipa do ROS prendeu Messina Denaro numa clínica de Palermo. A trama televisiva recupera esse intervalo como um thriller de procedimento, mas o que a torna culturalmente relevante é a escolha discursiva: contar a história pela lente do Estado e das famílias que se partilham entre o dever e a intimidade.
Como observadora do zeitgeist, vejo em L’invisibile mais que uma reconstruction histórica: um estudo de caráter que nos convida a ler o espetáculo público com olhos de cortina — ver o que permanece fora do enquadramento. A minissérie promete ser um espelho do nosso tempo, onde o verdadeiro enigma não é só a captura do chefe, mas a complexa tessitura humana que a operação revela.
Estreia em Rai1 nos dias 3 e 4 de fevereiro. Uma narrativa que, ao privilegiar o quotidiano dos agentes, redefine o conceito de coragem: menos platitude, mais consequência.






















