Kneecap lança Fenian: a resposta sonora a quem quis nos calar
O trio de Belfast volta a ocupar o centro do palco com um novo disco: Fenian, previsto para 24 de abril pela Heavenly Recordings. Depois do aplaudido Fine Art (2024) e do biopic homônimo premiado em Cannes do outro lado do Atlântico — via Bafta e Sundance — os artistas reafirmam que sua música é mais do que som; é um espelho do nosso tempo e um reframe da resistência cultural.
Amados por muitos como voz da identidade irlandesa contemporânea e igualmente alvo de críticas e censuras, Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí descrevem o novo trabalho como uma reação consciente a tentativas de silenciamento: “Houveram quem tentasse nos rotular como ‘terroristas’, cancelar concertos e até declarações do primeiro‑ministro. Tínhamos toda a determinação necessária. Isto não é uma reação impulsiva, mas uma resposta ponderada a quem tentou nos calar. E falharam”.
Gravado com o produtor Dan Carey — “um produtor com quem nos sentimos honrados” — o som de Fenian é intencionalmente mais sombrio: “mais sinistro, porque vivemos tempos sinistros. Mas também desafiador e triunfante”. O título do álbum recupera a figura dos guerreiros do folclore irlandês, termo que depois virou pejorativo. Os Kneecap retomam essa palavra para nomear quem diz a verdade ao poder. Como lembram: após 800 anos de colonização, muitos acreditaram que a língua irlandesa morreria — não aconteceu, graças à Muintir na Gaeltachta e aos gaélicos que não deixaram sua cultura ser destruída. “Os Kneecap correram o mesmo risco… mas ainda estamos aqui. The Paddies are back“.
O single que antecipa o álbum, Liars Tale, chega acompanhado por um videoclipe dirigido por Thomas James e imprime a estética do caos: um punk‑rave incendiário que destrói os “vãos esforços” de Keir Starmer para silenciar o movimento. O alvo são os conservadores travestidos de trabalhistas e os políticos que atacam artistas. Musicalmente, a faixa se apoia num riff que remete ao rock dos anos 80, revivido pelo caos do rave‑punk.
Sobre a letra, gravada no estúdio de Dan Carey no sul de Londres, os Kneecap são claros: “Starmer é um bastardo, não o aceitem. Não há nada de bom na política deles e o ventre da besta está se alimentando no exterior”. O tom é deliberado, sem concessões — uma tomada de posição estética e política que atua como um espelho cortante do cenário contemporâneo.
O diretor Thomas James explica que queria um vídeo “punk, absurdo, abrasivo e selvagem. Um mau reflexo do mundo em que vivemos; um caos total”. A ideia do “carrossel da distração” guiou a montagem: inserir tantas ideias quanto coubessem em três minutos, encarnando um inferno onde “2+2=5” — uma imagem perfeita para traduzir a sensação de desordem informacional que marca nosso tempo.
Fenian surge, portanto, como um turbilhão de mitologia irlandesa, sátira e raiva: não apenas um álbum, mas um documento cultural que traça a semiótica do viral e o roteiro oculto da sociedade. Na confluência entre música de protesto, herança linguística e estética rave, os Kneecap reafirmam que o entretenimento, em sua melhor forma, segue sendo um instrumento de memória e transformação.
Ouça Liars Tale e prepare‑se para um verão em que a trilha sonora da contestação vem com sintetizadores em alta e punhos erguidos.
















