Por Chiara Lombardi — Em uma temporada em que o espetáculo muitas vezes substitui o sentido, Kid Yugi apresenta seu terceiro álbum de estúdio, Anche gli eroi muoiono, um trabalho que volta ao lugar comum do cotidiano para ressignificar o papel do herói. Aos 25 anos, o rapper pugliese entrega um disco que é, ao mesmo tempo, uma elegia e um manifesto: uma partitura que mistura referências literárias, estéticas funerárias e uma escrita que busca corpo a corpo as contradições do tempo presente.
No evento de apresentação na Universal, a cenografia já antecipava o tom do disco: coroas de rosas brancas com fitas contendo os títulos das faixas, um memorial gigante em Piazza XXIV Maggio, em Milão, e uma grande urna que remete à capa do álbum — Kid Yugi repousa numa espécie de caixão forrado de cetim vermelho sobre um leito de rosas brancas, um punhal entre as mãos. A imagem é deliberada e pensada para provocar, mas também para proteger. “Decidi fazer morrer a mim mesmo na capa tanto para não arrastar outrem, quanto porque o tema central do disco é quanto, na sociedade atual, o verdadeiro herói seja o homem comum”, explicou o artista.
Essa é a chave conceitual: o que o álbum nomeia como heróis não são figuras mitológicas ou celebridades midiáticas, e sim pessoas anônimas que persistem no cotidiano. A estética fúnebre — o punhal, as rosas, o caixão — atua como um espelho: torna visível a expectativa social sobre quem deve ser salvo ou exemplarizado e, ao mesmo tempo, permite uma catarse. “Um punhal nas mãos de um morto não é tão perigoso: é a mão que esfaqueia, não a lâmina”, diz ele, desmontando simbolismos fáceis e lembrando que a ação é humana, não objeto.
Musicalmente e liricamente, Kid Yugi demonstra erudição pop: cita a memória russa com reverência ao Dostoiévski e encontra ecos arcaicos em Gilgamesh. Em suas barras, a culpa, o bem e o mal se entrelaçam como numa cena dostoievskiana — Raskolnikov aparece como sombra e espelho — e o rap vira uma arena para perguntas éticas que raramente se acomodam ao sabor do hit. As influências também passam pelo universo punk e pós-industrial italiano — lembra-se dos CCCP — que moldaram parte da sua formação estética.
É curioso observar como um artista que agrada majoritariamente aos jovens consegue surpreender o público adulto pela clareza e pela recusa ao cinismo óbvio. As letras de Anche gli eroi muoiono não se regem por fórmulas fáceis; elas cavalgam entre referências literárias, imagens cinematográficas e uma análise da justiça social que lembra o roteiro oculto da nossa era. Há um fio comum: a tentativa de entender por que o heroísmo hoje é percebido como escasso e, ao mesmo tempo, onipresente nas expectativas.
Sobre o videogame cultural que é o mercado musical atual, e as métricas que o orientam, Kid Yugi é direto. Questionado sobre uma possível passagem pelo palco de Sanremo, ele responde: “Não agora, eu sofro quando sou julgado apenas pelos números” — uma frase que coloca em choque a dimensão humana do artista com o imperativo quantitativo da indústria. É um diagnóstico sobre a sinédoque contemporânea: reduzir uma obra a estatística é falsear o significado.
O disco sai em 30 de janeiro pela Universal. Mais do que um objeto sonoro, Anche gli eroi muoiono funciona como um espelho do nosso tempo: convoca a literatura, a mitologia e a iconografia popular para perguntar quem, afinal, ainda merece esse título de herói. A resposta do álbum é tanto uma elegia quanto uma convocação — os verdadeiros heróis existem, mas são difíceis de localizar porque não gritam no centro do palco; estão nas margens, nas pequenas resistências cotidianas. E é aí, nessa periferia do épico, que o rap de Kid Yugi encontra sua maior força.





















