Julio Iglesias, 82 anos, decidiu passar ao contrataque após a decisão da Audiencia Nacional na Espanha de arquivar a denúncia apresentada por duas ex-empregadas por suposta trata e agressões sexuais, por falta de competência territorial. A movimentação da defesa revela não apenas uma disputa jurídica, mas um pequeno espelho do nosso tempo: a colisão entre celebridade, jurisdição e narrativa pública.
A procuradoria arquivou o caso depois de entender que os atos alegados — segundo as investigações iniciais — ocorreram na República Dominicana e nas Bahamas, que as denunciantes não têm vínculos com a Espanha e que o cantor não se encontra em território espanhol. Antes do arquivamento, contudo, a acusação havia colhido em videoconferência as declarações das duas mulheres, conferindo-lhes o estatuto de testemunhas protegidas e identificando-as apenas como 1/2026 e 2/2016, em nome da proteção à sua identidade.
Para a equipe de defesa de Julio Iglesias, liderada pelo advogado José Antonio Choclán, essa proteção foi contraditória: segundo os defensores, as próprias acusadoras e seus representantes «não se protegeram quando, através de seus representantes e meios de comunicação afiliados, orquestraram uma agressiva campanha mediática». A defesa pede agora acesso integral à denúncia e a todo o material reunido na fase de pré-instrução, incluindo os interrogatórios realizados pelas supostas vítimas, conforme reportagem do jornal El País.
O objetivo declarado dos advogados é verificar «se foi cometido um crime de denúncia falsa» e estudar medidas legais que possam ser apresentadas, alegando que o direito ao honor de Iglesias foi «irreversivelmente lesado». A linha defensiva aponta para um duplo desafio: recuperar a reputação pessoal do artista e disputar a maneira como narrativas de acusação se propagam no espaço público transnacional.
Do lado das acusadoras, a defesa — contratada pela organização Women’s Link Worldwide — sustentou inicialmente a possibilidade de investigação na Espanha com base na nacionalidade do cantor. A procuradoria, porém, considerou esse elemento insuficiente para instaurar inquérito no país ibérico.
Este episódio desenha um roteiro oculto da sociedade contemporânea: quando a justiça se cruza com a mídia e com identidades dispersas por vários países, as fronteiras jurídicas e simbólicas se tornam território de disputa. Mais do que um caso pessoal, é um reflexo cultural sobre poder, imagem pública e os mecanismos que definem credibilidade.
A data do despacho é de 28 de janeiro de 2026. A partir daqui, a defesa de Iglesias já anunciou que estudará medidas legais, o que indica que este capítulo ainda pode ganhar novos atos judiciais e midiáticos.






















