Na noite em que James Blake apresentou, em uma escuta coletiva exclusiva, seu novo álbum Trying Times na Triennale Milano, a experiência foi desenhada para suspender o mundo exterior: os celulares foram recolhidos na entrada e lacrados em capas pretas, eliminando qualquer distração visual ou a tentação de filmar. A sala, iluminada apenas por luzes vermelhas, transformou-se num pequeno santuário auditivo — o público sentado no chão, em silêncio quase reverente, percorreu as doze faixas do disco sem interrupções. Foi uma listening session rara, um convite à atenção plena num tempo de dispersões constantes.
Vencedor de um Grammy e referência para artistas como Beyoncé, Kendrick Lamar, Jay-Z e Travis Scott — para quem produziu e colaborou em diversos projetos —, James Blake chega ao seu sétimo álbum de estúdio a quinze anos de seu álbum de estreia (James Blake, 2011). Em Trying Times, há uma escolha sonora e estética clara: menos enclausurado na eletrônica abstrata, o trabalho recupera a forma-canção com versos e melodias mais nítidos, preservando, porém, a marca de introspecção e experimentação que define sua obra.
O núcleo temático do disco gravita em torno da ansiedade contemporânea, da hipersensibilidade emocional e da dificuldade de manter conexões autênticas num entorno sobrecarregado — como se o álbum funcionasse como um espelho do nosso tempo, refletindo inquietações individuais que são também questões coletivas. Blake não se esquivou da crueza: “O mundo está fodido”, disse, traçando o ponto de partida do projeto. “É bonito imaginar como reconciliaremos a vida privada com as ambições, mas há uma sensação de que o mundo não será acolhedor com os nossos sonhos” — uma frase que sintetiza o tom do disco, entre precariedade e tentativa de alívio.
Apesar da sensação de fragilidade que permeia as letras, o músico foi enfático em que Trying Times não nasceu do caos sonoro: “Se eu fosse fazer um disco que realmente representasse como me sinto, seria muito mais caótico. Quis criar algo que me desse alívio.” Essa vontade de contenção se revela na produção, onde a subtração já presente em trabalhos recentes é aprofundada: arranjos mais esparsos, textos diretos, e aberturas melódicas que oferecem luminosidade à nostalgia.
Um elemento-chave do álbum é a colaboração com Dominic Maker, dos Mount Kimbie — descrito por Blake como “minha esposa musical” — cujo talento para encontrar o sample perfeito e a emoção certa é omnipresente nas faixas. Blake credita a Maker a maior parte dos samples do disco, uma parceria que reforça o caráter cuidadoso e curatorial do projeto.
Publicado pela Good Boy Records em parceria com a Virgin Music Group, o álbum tem lançamento previsto para 13 de março e chega como um roteiro íntimo sobre viver e sonhar num cenário de transformação: mais do que música, Trying Times soa como um pequeno dispositivo de resistência emocional, uma tentativa de condensar e tornar suportáveis as inquietações do presente. Ao sair da sala iluminada em vermelho, é impossível não perceber que o disco não busca respostas fáceis — propõe sim um reframe da realidade, convidando o ouvinte a olhar para dentro e para fora, como quem assiste a um filme cujo final ainda está por ser escrito.





















