Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura arte, memória e denúncia social, o histórico grupo da Barbagia, os Istentales, apresentam Promesse mascherate, um single que nasce na Sardenha e que se coloca como um verdadeiro hino contra a violência contra as mulheres. A canção não é apenas uma composição: é um convite à reflexão sobre o se e o quando — o delicado direito de decisão que deve pertencer exclusivamente à mulher.
No roteiro sonoro deste projeto, a voz da Sardenha encontra uma formação de vozes ilustres: Roberto Vecchioni, Elio (de Elio e le Storie Tese), o trompetista Paolo Fresu, Yuri Cilloni (dos Nomadi), Dolcenera e o coro feminino Urisè. Uma constelação de intérpretes que amplia a mensagem central do grupo: a violência não é uma nuance, e sim uma ferida a ser nomeada e tratada.
O líder dos Istentales, Gigi Sanna, sintetiza a intenção do projeto com a franqueza de quem usa a música como tribunal moral: “A mulher tem o direito de mudar de ideia a qualquer momento, sem ser ameaçada, violentada ou assassinada por quem diz amá-la; a música é um instrumento poderoso para denunciar a violência contra as mulheres”. Essas palavras ecoam como um coro — e o coro, aqui, é literal e simbólico.
O single, assinado por Luigi Antonio Sanna, Maria Paola Masala, Francesco Caboni, Marino Maillard e Joel Flateau, trabalha a frase-chave “se e quando” como um gesto de soberania pessoal. Em um país e em um contexto cultural em que demasiadas violações começam no silêncio do lar, na manipulação verbal e no controle emocional, a canção se impõe como um espelho do nosso tempo: revela padrões, convoca responsabilidade e pede que a sociedade reescreva seu roteiro em direção ao respeito.
Mais do que relatar episódios, Promesse mascherate propõe um reframe da realidade. A violência é apresentada não apenas como marcas físicas, mas também como palavras que anulam, comportamentos possessivos que apagaram subjetividades, e um repertório de justificativas que naturalizam o inaceitável. É uma das feridas mais profundas da sociedade contemporânea — e é também uma ferida que, por vezes, se desenvolve em silêncio, dentro de relações aparentemente privadas.
Ao convocar artistas de gerações e estilos diversos, os Istentales transformam a música em plataforma coletiva de sensibilidade. Fresu empresta a sua melancolia instrumental; Vecchioni, a sua sabedoria de contador; Elio, a ironia cortante que expõe contradições; Dolcenera, a urgência vocal; Cilloni, a raiz do repertório popular; e o coro Urisè, a força coral que devolve a dimensão comunitária à voz individual. Juntos, eles fazem da canção um lugar de encontro entre a denúncia e a esperança.
Em termos culturais, este lançamento funciona como um pequeno manifesto: a música — quando consciente — é mais do que entretenimento. É um repositório de memórias afetivas e políticas, um mapa sonoro que pode mostrar onde estamos feridos e indicar, também, caminhos de cura. Promesse mascherate é, portanto, uma peça desse mapa, uma trilha sonora para quem quer compreender por que certas violências persistem e como o coletividade pode reagir.
Ao fim, fica a imagem: uma ilha que canta para o continente; vozes que se entrelaçam como partituras de um novo contrato social. Se a canção toca pelo coração, que ela também ative a consciência. Porque a mudança começa quando a sociedade aprende a chamar a violência pelo nome e a respeitar, sem ambivalência, o direito de escolha de cada mulher.






















