Por Chiara Lombardi — Em um gesto de afeto duplo, I Ministri retornam aos palcos menores para reafirmar o valor dos espaços que mantêm a música ao vivo como um presídio cultural indispensável. No Provincia popolare tour, a banda se apresenta, nesta sexta-feira 30 de janeiro, no Druso de Ranica com a formação enxuta que também define a sua essência: Davide “Divi” Autelitano na voz e no baixo, Federico Dragogna na guitarra e segunda voz, e Michele Esposito na bateria.
Dragogna sintetiza o ethos por trás da escolha: os palazzetti “não nos são acessíveis” e, mais importante, a opção pelos clubes nasce da necessidade de sustentar essas pequenas arenas culturais. “É um gesto concreto em favor de muitos pequenos clubes para os quais é difícil existir e complexo montar uma programação”, diz ele. Estes locais são, nas palavras do guitarrista, “a realidade de onde viemos, o verdadeiro X Factor”. O roteiro do trio não é apenas uma turnê: é um reframe de sustentabilidade — uma resposta ao overtourism que empurra multidões em direção a grandes centros como Milão, Bologna e Florença.
O que veremos no palco é propositalmente cru. “Somos um trio também no palco: tocar sem bases, sem sequências e sem colaboradores ao vivo é uma posição tomada”, explica Dragogna. A escolha reivindica o retorno ao concerto autêntico — aquele em que a improvisação tem espaço e decisões são tomadas no último segundo, olhando-se nos olhos. É o concerto de uma vez, com falhas possíveis, mas com veracidade; um espelho do nosso tempo onde a performance revela o roteiro oculto da coletividade.
Vinte anos se passaram desde o lançamento independente de I soldi sono finiti. A banda reflete sobre como mudou o acesso à música: há duas décadas era preciso procurar, pagar por um disco, cultivar o desejo. Hoje, “com poucos euros por mês você escuta todos os artistas do mundo” — e essa disponibilidade, paradoxalmente, diluiu a magia. Ainda assim, a música ao vivo preserva um antídoto vital para reacender o desejo e a experiência coletiva.
“Nós envelhecemos e tocamos melhor”, afirma Dragogna em tom que mistura humildade e provocação. “Felizmente e infelizmente não mudamos tanto; continuamos a manter a brasa acesa, não para pagar contas, mas porque este é o ofício que nos define.” Esse cuidado com a chama criativa é parte do roteiro da banda: menos espetáculo industrial, mais intimidade e risco.
No single Aurora popolare, a letra fala de uma espera por “uma aurora popular, uma revolta qualquer, uma centelha, um carnaval”. A canção, escrita há cerca de um ano e meio, acabou encontrando ressonância com as ruas que se encheram de manifestações a favor da Palestina — uma coincidência profética que transformou a faixa em leitura do presente. Para a banda, a “revolta” desejada não é só barulho político, mas uma experiência de perda do ego, um sentimento coletivo em que se toma a mão do outro e se participa de algo que transcende o indivíduo.
O formato enxuto do trio, a escolha dos palcos fora do mapa e a recusa a artifícios em show ecoam como uma poética de resistência cultural. É como se I Ministri propusessem um reencenamento do concerto como ritual: momentos improvisados, trocas de olhar, riscos palpáveis — tudo para lembrar que a música, quando vivida em comunidade, funciona como um espelho que devolve quem somos e o que ainda podemos ser juntos.
O Provincia popolare tour não é apenas nostalgicamente revivalista; é uma tomada de posição pública sobre como queremos coabitar os espaços culturais no presente. Em tempos de consumo instantâneo e itinerários pré-montados, a escolha de tocar em clubes é uma pequena revolta com efeitos concretos — um eco cultural que resiste à deriva do espetáculo massificado.
Ficha rápida: data do show — 30 de janeiro; local — Druso, Ranica; formação — Davide “Divi” Autelitano (voz e baixo), Federico Dragogna (guitarra e segunda voz), Michele Esposito (bateria). Prepare-se para um concerto em que a improvisação e o contato visual comandam o roteiro.






















