Por Chiara Lombardi — Ao ligarmos a transmissão dos Jogos de Milano Cortina 2026 na Rai, uma imagem familiar surge como primeiro quadro da vinheta: o célebre Uomo Vitruviano de Leonardo da Vinci. Mas, se você olhar com atenção, algo foi removido — os genitais masculinos do desenho foram apagados na versão usada pela emissora.
A vinheta, uma sequência gráfica colorida que celebra esportes, paisagens e referências à italianidade, transforma o Homem Vitruviano em corpos de patinadores, esquiadores e outros atletas de inverno. A reprodução é, em muitos aspectos, fiel: proporções, postura e até o enquadramento geométrico. Porém, o detalhe que chama atenção é o pequeno retângulo branco onde deveriam estar os órgãos genitais.
Por que censurar um dos elementos mais reconhecíveis de um dos ícones do Renascimento? Existem hipóteses plausíveis e um eco cultural a ser considerado. Uma explicação possível é uma leitura estrita do regulamento do Comitê Olímpico Internacional (COI), que veta conteúdos sexualmente explícitos. Em tradução livre, a regra aponta que cenas ou representações de natureza sexual explícita não são permitidas nas transmissões oficiais. Alguém na produção audiovisual pode ter decidido, por precaução jurídica e de conformidade, “branquear” o detalhe.
Outra leitura é simbólica: uma tentativa questionável de inclusão — apagar um atributo masculino como forma de neutralizar identidades. O resultado, ironicamente, produce o efeito inverso: a figura perde uma parte significativa de sua historicidade e torna-se quase anódina, lembrando bonecos articulados ou figuras comercialmente uniformizadas, como um Ken sem traço.
Essa intervenção também abre uma discussão mais ampla sobre como reinventamos o passado no presente. A alteração de imagens clássicas para cumprir normas contemporâneas não é inédita: lembra-se do episódio em que a Vênus de Botticelli foi “vestida” em um anúncio turístico moderno? São pequenas mutações no nosso acervo visual que funcionam como um espelho das preocupações e tabus de hoje.
Da perspectiva de análise cultural, a decisão de apagar os genitais é mais do que um ajuste estético: é um gesto que reescreve o roteiro de leitura da obra. O Homem Vitruviano foi concebido justamente para falar de proporções humanas, da relação entre forma e cosmos — o círculo e o quadrado. Zerar um detalhe anatômico é, em certo sentido, um reframe da imagem que altera o diálogo entre passado e presente.
Seja por cautela institucional, desejo de apelar a uma audiência mais ampla, ou por um mal-entendido sobre o que constitui conteúdo impróprio, a vinheta da Rai oferece um estudo de caso perfeito sobre como o patrimônio artístico é mediatizado hoje. E como sempre acontece quando remixamos ícones, a pergunta que fica não é apenas “por que?”, mas “o que essa alteração diz sobre nós, agora?”
Data da observação: 12 de fevereiro de 2026.






















