Em 7 de março de 1986, estreava nos EUA Highlander, o filme dirigido por Russell Mulcahy e estrelado por Christopher Lambert. À primeira vista, parecia mais um épico de fantasia com espadas; com o tempo, virou um verdadeiro espelho do nosso tempo, um roteiro oculto da sociedade sobre imortalidade, memória e o desejo de singularidade que habita o imaginário coletivo.
No longa, Lambert interpreta o antiquário nova-iorquino **Russell Nash**, na verdade nascido 500 anos antes na Escócia como **Connor MacLeod**. Ao longo dos séculos ele enfrenta outros imortais em duelos com espada até o confronto final pelo princípio que se tornaria mantra da franquia: “there can be only one” — só pode restar um. No século XVI, é o espadachim espanhol **Ramírez**, vivido por **Sean Connery**, que lhe ensina o ofício; no presente, o vilão **Kurgan** (interpretado por **Clancy Brown**) é a ameaça que culmina num clímax em Nova York, com a parceira Brenda (Roxanne Hart) ao lado do protagonista.
Apesar da trilha sonora icônica assinada pelos **Queen** e de uma estética que mistura flashbacks medievais com a Grande Maçã contemporânea, o filme foi um fracasso de bilheteria: com orçamento estimado em 16 milhões de dólares, arrecadou menos de 13 milhões. Ainda assim, o título ganhou vida própria e, num efeito parecido ao de um filme cult que vai florescendo na memória coletiva, originou quatro sequências e uma série de TV inspirada no original.
Para celebrar os 40 anos, reuni 12 segredos e curiosidades do set que revelam como a produção, entre tropeços e invenções, acabou gerando um eco cultural duradouro. São detalhes que vão do trabalho de efeitos práticos às tensões nos bastidores — pedaços do making of que ajudam a ler o filme além da superfície.
- Connery e o copo ao lado da espada: Relatos de bastidores indicam que Sean Connery frequentemente chegava ao set com uma relação íntima com o copo — comportamentos que alimentaram fofocas e tensões mas não diminuíram o magnetismo de sua presença comoRamírez.
- Faíscas à moda antiga: muitos efeitos visuais foram produzidos com métodos práticos. Havia cabos e dispositivos ocultos sob os figurinos para gerar faíscas e faiscamentos nas cenas de duelo.
- O sotaque enigmático de Lambert: a escolha de Christopher Lambert para o papel principal trouxe uma mistura de melancolia e estranheza, parte dela potenciada por seu timbre e pela dubiedade do sotaque, que ajudou a construir um protagonista ao mesmo tempo distante e próximo.
- Ramírez, figura mentor: a dinâmica entre Ramirez e Connor segue o arquétipo do mestre que molda o discípulo — uma metáfora clara sobre tradição, técnicas e memórias transmitidas ao longo das gerações.
- Trilha que virou personagem: a participação dos Queen não é apenas trilha: é uma camada narrativa que tensiona cenas e se tornou indissociável da experiência do filme.
- Estética híbrida: a alternância entre Escócia renascentista e Nova York dos anos 80 cria um reframe da realidade, como se o tempo fosse um cenário de transformação contínua.
- Duelo final em Nova York: o embate entre Nash e Kurgan é pensado como um clímax antropológico — disputa de vontades que decide o futuro da humanidade dentro do universo do filme.
- Problemas no set: entre diferenças criativas e limitações orçamentárias, a produção conviveu com improvisos que, curiosamente, ajudaram a forjar a aura cult da obra.
- Acrobacias e riscos: muitos dos golpes e quedas foram executados por atores e dublês com efeitos práticos, o que trouxe autenticidade e perigo real a algumas cenas.
- Baixa bilheteria, longevidade imortal: o fracasso financeiro inicial não impediu que o filme se tornasse um símbolo de resistência cultural, sendo reavivado por novos públicos e formatos.
- Franquia além do cinema: a semiótica do viral — a capacidade de transformar um objeto de consumo em ícone — manifestou-se com sequências e uma série de TV que expandiram o universo.
- Legado temático: mais do que espada e sangue, Highlander deixa questões sobre identidade, memória e poder — temas que continuam ressoando na cultura pop.
O filme se mantém como um estudo sobre como a cultura popular reescreve perdas e ganhos: um antiquário que volta a ser guerreiro, um mentor que transmite técnicas e mitos, e um antagonista que encarna a violência anacrônica. É cinema que funciona como espelho do nosso tempo — e que, mesmo com falhas técnicas ou box office modesto, alcançou a imortalidade cultural.





















