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Há duas faces que se entrelaçam em Hayato Sumino: o intérprete clássico aclamado nos grandes palcos e o criador digital que conquistou audiências globais. O pianista e compositor japonês, finalista do Prêmio Chopin 2021, mestre em engenharia pela Universidade de Tóquio e antigo talento da matemática, vem ocupando um lugar de destaque no cenário musical contemporâneo. Em novembro passado, registrou um recorde de público ao vender 18.864 ingressos para um recital em Yokohama, marco reconhecido pelo Guinness.
No universo online, Sumino também é conhecido como Cateen — “sou fã de gatos e Cateen soava bem”, brinca — e transformou essa afinidade em sucesso: cerca de **1,5 milhão de inscritos no YouTube**, com aproximadamente **170 milhões de visualizações** e **235 milhões de streams**. Essa bifurcação entre palco e tela revela não só uma estratégia de carreira, mas um novo tipo de presença artística, que conecta tradição e imediatismo digital.
Com 30 anos, cabelos longos e traços delicados lembrando seu ídolo histórico, **Fryderyk Chopin**, Sumino tem atraído um público jovem por seu modo livre de abordar a música clássica: mistura de reverência ao cânone e improvisação com sabor de jazz. No concerto em Roma, realizado na Aula Magna da Sapienza para a IUC, e no seu novo álbum, Chopin Orbit — segundo trabalho pela Sony Classical, lançado em 26 de janeiro — o pianista alterna execuções fiéis de prelúdios, mazurcas e polonaises com releituras pessoais e criativas.
“A grande música é sempre contemporânea”, disse Sumino em sua fala sobre o projeto. Em sua leitura, **Chopin** é atemporal: “há uma moderação elegante, uma dignidade humilde. Em uma época de ruído excessivo e notícias constantes, sua sinceridade silenciosa tem poder”. Seu objetivo artístico é servir de ponte entre tradição e inovação, fazendo com que o repertório chopiniano pareça próximo, vivo, visto através de uma lente moderna — entrar, portanto, na órbita de Chopin.
O significado histórico de Chopin, bandeira da independência polonesa, também ressoa hoje. Sumino observa que o amor de Chopin pela pátria pode tocar sensivelmente no presente, sendo um “grito de patriotismo, não de nacionalismo”, expressão que reafirma a dimensão ética e humana da música como espelho do nosso tempo.
O percurso de Sumino até o piano foi incomum: embora tivesse começado a tocar aos três anos — a mãe era professora de piano e o instrumento dominava a sala de estar — ele se aprofundou em matemática e engenharia informática. Aqueles anos como pesquisador deixaram-lhe uma mentalidade experimental e a capacidade de olhar questões a partir de perspectivas amplas. “A matemática ensina a pensar por saltos criativos”, já afirmou, relacionando a resolução de enigmas ao prazer de interpretar.
Suas fontes de inspiração são ecléticas: na semana anterior, confessa, havia ouvido Ravel, Keith Jarrett e até K-pop. Essa ecletismo alimenta a sua visão de uma música clássica que respira outras tradições sonoras.
Sobre a chegada da inteligência artificial ao universo musical, Sumino pondera suas consequências: acredita-se que a IA influenciará processos, permitirá novas ferramentas de criação e redistribuição de músicas, mas não eliminará a dimensão humana da performance — o gesto, a memória, a narrativa emocional que só um intérprete vivo carrega. A tecnologia, portanto, faz parte de um reframe na indústria, desafiando artistas a repensarem o seu papel.
Como observadora do zeitgeist, Sumino representa um fenômeno mais amplo: o do músico que transita entre erudição e viralidade, entre tradição e plataformas. Seu trabalho é, em última instância, um convite a olhar a música clássica como um cenário de transformação — um roteiro oculto da sociedade onde passado e presente se espelham.






















