Por Chiara Lombardi — No palco do Kia Forum, em Inglewood, Califórnia, a energia do pop-punk se transformou em um espelho do nosso tempo. Na noite de 17 de janeiro, durante o fim de semana em homenagem a Martin Luther King Jr., o Green Day usou a faixa “Holiday”, do álbum “American Idiot” (2004), para renovar seu ataque político: desta vez o alvo foi o presidente Donald Trump e a sua máquina de políticas de segurança interna.
O frontman Billie Joe Armstrong não se conteve. Entre acordes e refrões, ele interrompeu a performance para clamar: “‘Holiday’ é antifascista e contra a guerra. Defendamos nossos irmãos e irmãs do Minnesota’” — uma referência direta às manifestações que eclodiram após a morte de Rene Good, morador de Minneapolis, morto por um agente policial. O momento se desenhou como um reframe da realidade: um show pop transformado em praça política, onde a canção funciona como roteiro de resistência.
Armstrong também alterou um trecho da letra para apontar o dedo a Stephen Miller, conselheiro de segurança interna dos EUA. No monólogo de “Holiday”, em vez de citar o representante da Califórnia, ele declarou: “Senhoras e senhores, agora a palavra de Stephen Miller” — deslocando o foco para a administração atual. Em outra mudança sagaz, a banda trocou a frase “eu não faço parte de uma agenda redneck” por “eu não faço parte da agenda MAGA“, referindo-se ao slogan de Trump.
Esse tipo de intervenção não é novidade para o Green Day. A banda há muito tempo costura sua música com crítica política: no American Music Awards de 2016 lideraram o coro “No Trump, no KKK, no fascist USA”; no último setembro, no Ohana Festival, ironizaram o presidente e chegaram a fazer menção aos dossiês de Epstein. O que vemos é uma tradição performática onde o concerto vira documento de protesto — a semiótica do viral transformada em postura.
Segundo o San Francisco Chronicle, a passagem por Inglewood pode ser vista como aquecimento para uma agenda intensa em fevereiro: no dia 6, o Green Day tocará no FanDuel Party ao lado dos Counting Crows, e dois dias depois, em 8 de fevereiro, a banda está escalada para a cerimônia de abertura do Super Bowl no Levi’s Stadium, em Santa Clara. A presença de Trump no evento ainda não foi confirmada.
Além do ativismo nos palcos, a banda prepara novidades discográficas: um memorial na divulgação anuncia 30 de janeiro como data de saída do novo disco, intitulado “Anche gli eroi muoiono” (“Até os heróis morrem”). É como se o ciclo criativo do grupo repetisse um movimento clássico do cinema político: a trilha sonora protesta, o roteiro público reage, e o eco cultural ressoa para além do show.
Num momento em que entretenimento e política se entrelaçam com mais força, o episódio em Inglewood confirma a hipótese: o palco continua sendo um dos territórios privilegiados para mapear tensões sociais e reescrever narrativas. Para o Green Day, cantar nunca foi apenas performar — é ocupar espaço, nomear responsabilidades e convocar solidariedades.






















