Como observadora do entrelaçamento entre entretenimento e memória coletiva, proponho que o fenômeno Gomorra não deva ser lido apenas como uma crônica da depravação da criminalidade organizada, mas também como um espelho midiático complexo — um verdadeiro brand cultural que atravessa jornais, romances, reportagens, cinema, teatro e séries. Esse é o roteiro oculto de uma narrativa que virou constelação.
Na esteira dessa constelação chega o prequel Gomorra – Le origini (disponível na Sky e em streaming no Now), que mergulha na juventude de Pietro Savastano em Napoli 1977. A série, assinada na escrita por Leonardo Fasoli e Maddalena Ravagli e dirigida por Marco D’Amore, reconstrói a ascensão de Pietro desde as origens humildes de Secondigliano até o universo do contrabando de cigarros e da violência organizada. O encontro decisivo com Angelo ‘a Sirena inaugura sua iniciação na camorra, entre alianças, traições e a construção de uma ética perversa.
O que impressiona é a cuidadosa ambientação: a narrativa oscila entre o registro quase documental sobre a Napoli daquelas décadas — casas em ruínas, superlotação, crianças que morrem cedo por doença e inanição — e uma fábula sombria sobre a sedução do crime como via de ascensão social. Nesse ponto, a série funciona como um espelho do nosso tempo, exibindo o reframe da realidade em que a ferocidade torna-se promessa de saída do abismo.
Mais do que ação, o prequel propõe um «romanzo di formazione» invertido: a formação moral consiste em aprender a trair, e a eficácia se mede pela brutalidade. Pietro e Imma — personagens que encarnam sonhos e desespero — veem no mal não apenas um recurso, mas um rito iniciático. A câmera, ao permanentemente recuperar a textura social, cria um efeito de espelhamento que pode beirar o documental, sem perder o verniz dramático que estrutura a série.
Por que continuamos fascinados pelo mal, na literatura e no cinema? É uma velha charada dramática: os criminosos, na ficção, frequentemente carregam atributos que a sociedade não confere aos «bons» — carisma, agência, transgressão. Há um enigma de dramaturgia que ultrapassa explicações sociológicas: a obra nos força a olhar o abismo e, ao fazê-lo, nos revela mais sobre nossas ansiedades históricas e coletivas do que sobre os próprios bandidos.
Não é à toa que, ao estudar Gomorra, se pode traçar um paralelo com fenômenos passados — pensemos no papel do Western na memória americana —: ambos são paisagens em que se projeta uma crise de identidade, um cenário de transformação onde mitos de origem e violência se misturam.
Como disse, em outro contexto, Don Giuseppe Diana — o pároco de Casal di Principe assassinado em 1994 pelo clan dos Casalesi —, «Non rendiamo questa terra la Gomorra del Paese». Essa exortação ecoa hoje como um lembrete de que a representação também pesa sobre a realidade. A série, portanto, não é só entretenimento; é um espelho cultural que nos obriga a interrogar o que admiramos e por quê.





















