Giusy Ferreri chega a Sanremo com a mesma voz que atravessou gerações e rótulos: entre hits de verão e baladas introspectivas, ela reconstrói a própria narrativa. Em entrevista republicada por ocasião do festival, a cantora fala sobre a carreira, as etiquetas que a acompanham e pequenas contradições que compõem seu imaginário público.
Na serata delle cover, Ferreri dividirá o palco com Francesco Renga interpretando «Ragazzo solo, ragazza sola», versão italiana che rievoca lo spazio intimista delle canções d’autore. Sobre a curiosa referência a «Bangkok» na letra de um de seus maiores sucessos — «Volerei da te, da Milano / fino a Bangkok / Cercando te» — Giusy é direta: «Sinceramente, nunca estive em Bangkok, mas com certeza irei».
A pergunta sobre capoeira rende uma das respostas mais pictóricas: «Não a pratiquei, mas guardo a imagem da capoeira de Salvador de Bahia; é um ritual corporal muito fascinante». E quando lhe lembram a citação di Patty Pravo — secondo cui per fare questo mestiere ci vorrebbero anfetamine — Giusy sorride e chiarisce: «O que precisamos é de adrenalina interior. Para mim, a música é uma droga boa: não consigo viver sem ela».
Os rótulos que insistem em acompanhá-la são múltiplos: «a rainha dos hits de verão», «a Amy Winehouse italiana», «a caixa do supermercado que venceu». Giusy aceita parte da verdade desses slogans, mas desfia a outra face: «As etiquetas limitam: eu gosto de tocar gêneros diferentes. O rótulo de Amy Winehouse italiana é um orgulho, porque remete a uma artista única, mas ao mesmo tempo pode apagar a originalidade que eu busco».
Sobre o sucesso inesperado de canções como Milano-Bangkok, Amore e Capoeira e Jambo, ela confessa que não foi um objetivo planejado, mas oportunidades que aceitaram transformar o repertório: «Esses hits de verão introduziram uma janela mais solar no meu trabalho, que normalmente caminha por baladas mais melancólicas. Minha inclinação pessoal é reflexiva; escrevo com o lado cerebral, talvez menos comercial».
Giusy fala também da origem humilde e do tempo em que trabalhou como caixa para se manter: «Ser caixa? Sim, eu precisava me sustentar». Hoje, ela mora em um lugar que parece um cenário cinematográfico: um borgo tranquilo, rodeado por asnos e galinhas, onde a vida cotidiana contrasta com o brilho do palco.
Essa biografia em movimento — do balcão do mercado ao palco de um festival que é espelho do tempo presente — revela o roteiro oculto de uma artista que recusa a simplificação. Como num bom filme, as contradições criam profundidade: a música como refúgio, a fama como lente distorcida, o campo como antídoto à velocidade do entretenimento.
Ao comparar-se com uma gigante vocal como Amy Winehouse, Ferreri lembra que a busca pela autenticidade é contínua: «Meu objetivo é expressar originalidade; que não me reduzam a um rótulo». E na postura de quem observa o próprio percurso, ela transforma mitos populares em pequenas tramas de verdade: a cassiera que venceu, a cantora que nunca esteve em Bangkok, a moradora de um borgo entre animais — todas imagens que compõem o seu trabalho e, sobretudo, sua identidade artística.
Para o público de Sanremo, e para quem vê na música o espelho de um tempo, Giusy Ferreri oferece um reframe da realidade: canções que são simultaneamente trilha sonora de verão e catálogo de nostalgias. E, como uma protagonista que revisita sua história, ela continua a explorar gêneros, desafiar rótulos e resistir a definições fáceis — porque, nas palavras dela, «a música me dá asas; e eu ainda quero voar».






















