Por Chiara Lombardi — No palco do Teatro Sociale em Bergamo, o ator e diretor Giorgio Marchesi entrega uma leitura que é ao mesmo tempo homenagem e reapresentação contemporânea do clássico de Pirandello. Em forma de monólogo, Il fu Mattia Pascal retorna à cena com elementos essenciais: a palavra, a luz e a música — e nos convida a olhar o espetáculo como um espelho do nosso tempo.
Nascido em Bergamo, em 1974, Marchesi encarna a figura pirandelliana e assina a direção ao lado da esposa, Simonetta Solder. A montagem, que já acumula cinco anos de turnê bem-sucedida, mantém vivas as dinâmicas de um texto escrito há mais de um século, sem perder a capacidade de provocar questões urgentes e civis sobre a existência e a representação do eu.
O ponto de partida é familiar: o dilema do ser e do não ser, reinventado como problema de identidade no século XXI. Para Marchesi, o romance de Pirandello coloca a identidade no centro da narrativa; hoje, argumenta ele, as plataformas digitais permitem que criemos inúmeros perfis e mostremos ao público apenas aquilo que queremos. É uma observação que transforma o palco num laboratório, onde o público se reconhece e se pergunta quem realmente é por trás das máscaras curadas da timeline.
A trilha do espetáculo é marcada pela presença ativa do contrabaixista Raffaele Toninelli, cujo instrumento funciona quase como um personagem. Marchesi conta que precisou batalhar para ter Toninelli a bordo, e a vitória artística é visível: há entre a palavra falada e o fluxo musical uma intimidade quase jazzística, uma complicità rítmica que reforça o ritmo narrativo e a memória do corpo do ator.
Espaços cênicos mínimos — luzes calculadas, som que respira, a força do monólogo — realçam uma direção que privilegia a escuta e o silêncio. Marchesi e Solder optaram por poucos elementos, todos profundamente teatrais, confiando na capacidade do texto e da interpretação para reativar camadas de sentido. A montagem revela-se, assim, um reframe da realidade onde o passado literário encontra sua reverberação nas inquietações modernas.
O retorno ao palco de Bergamo tem sabor de casa: o ator confessa que o aplauso recebido na própria cidade tem uma carga afetiva particular. As próximas exibições previstas são a sessão vespertina de sexta-feira, 6 de fevereiro, e a matinée de sábado, 7 de fevereiro — ocasiões propícias para revisitar o romance sob a aurora de uma temporada assinada pela Fondazione Teatro Donizetti.
A própria Fundação complementou a montagem com um trabalho educativo nas escolas secundárias, submetendo professores e estudantes a um percurso guiado pela pergunta orientadora: ‘Quem você gostaria de ser se não fosse você mesmo?’. A iniciativa marca o espetáculo como ato cultural que ultrapassa o palco, ecoando como projeto pedagógico e civicamente engajado.
Em cena, Il fu Mattia Pascal não é apenas a remontagem de um clássico, mas um convite para ler a identidade como construção performativa. O espetáculo atua como um espelho: nas superfícies refletidas, vemos o roteiro oculto das nossas escolhas digitais, o jogo entre máscara e verdade, e a semiótica do viral que redesenha o eu. Assistir a essa montagem é perceber que o teatro continua a ser o mais intenso estúdio de captura do humano — um cenário de transformação onde o passado literário ilumina os dilemas contemporâneos.

















