Ginger e Fred, lançado nas salas italianas em 22 de janeiro de 1986, permanece como um dos marcos finais do cinema de Federico Fellini. Terceiro‑último longa do mestre riminese, o filme situa‑se na fase mais aberta à reflexão e à ironia amarga de sua obra: uma produção que, sob a aparência de leveza — dança, variedade e a memória do avanspettacolo —, desenha uma denúncia radical da televisão e da modernidade espetacular da década de 1980.
No centro dramático estão os dois intérpretes de sempre do universo felliniano: Giulietta Masina e Marcello Mastroianni, respectivamente Amelia Bonetti e Pippo Botticella. Eram, no pós‑guerra, pares de tip‑tap e imitadores de Ginger Rogers e Fred Astaire, figuras que encarnavam uma elegância artesanal do espetáculo — uma espécie de ritual performativo que sugeria um outro lugar possível. Décadas depois, são convidados por uma produção televisiva para um megashow natalino apresentado por Aurelio (interpretado por Franco Fabrizi): um evento mediático que transforma memórias e vidas em conteúdo descartável.
O reencontro de Amelia e Pippo acontece num estúdio romano labiríntico e desumanizante. Rodeados por dublês, anões, fanáticos religiosos e personagens borderline, os dois artistas reaparecem com uma compostura tímida e uma nostalgia que desafia o presente. A máquina televisiva do filme os devora e banaliza: técnicos e apresentador tratam os convidados como objetos de consumo imediato, incapazes de escutar a sutileza de uma performance ou de reconhecer a persistência da memória artística.
Fellini constrói, portanto, um filme sobre o tempo: o envelhecer como trauma, a graça que resiste de modo frágil e a luta pela sobrevivência de uma identidade em sistema que não valoriza memória nem valor cultural. O momento culminante — a interrupção por um blackout durante a apresentação — funciona como cena reveladora: na escuridão, os dois confidenciam sobre a futilidade de sua presença naquele cenário, transformando a queda de luz numa metáfora da falência do espetáculo moderno.
Mas Ginger e Fred não é apenas uma queixa contra a televisão. É também um reframe histórico: Fellini mostra como a promessa de progresso cultural se converteu numa linguagem de consumo, reorganizando o real em função do viral e do espetáculo. O filme perscruta o roteiro oculto da sociedade italiana dos anos 80 — a ascensão da televisão comercial, a cultura do fenômeno e a erosão do respeito pelas tradições artísticas — e devolve ao espectador um espelho incômodo do nosso tempo.
Ao revê‑lo hoje, quatro décadas depois, percebemos que a sátira felliniana continua atual. A grotesca galeria de figuras que orbitam o estúdio prenuncia os algoritmos de atenção contemporâneos: todos são intercambiáveis, reduzidos a imagens prontas para consumo. E, ao mesmo tempo, a relação entre Amelia e Pippo — feita de disciplina, pudor e memórias partilhadas — oferece uma pequena resistência ética, uma lembrança de que a arte pode, por instantes, recusar a banalização.
Chiara Lombardi — no papel de analista cultural — vê em Ginger e Fred não só a crítica explícita à vulgaridade televisiva, mas também um estudo sobre memória cultural e identidade em transformação. O filme é afirmação e lamento: um trabalho que mistura melancolia e ironia, onde a coreografia dos envelhecidos artistas se converte num gesto de desafio e preservação.
Ao celebrar os 40 anos desta obra, somos convidados a revisitar o que o espetáculo fez com as nossas lembranças e com a noção de respeito artístico. Fellini nos oferece, uma vez mais, um espelho do nosso tempo — e nos lembra que todo entretenimento carrega o peso da história que o originou.






















