Por Chiara Lombardi — A performance de Ghali na cerimônia de abertura dos Jogos Milano‑Cortina desencadeou mais do que aplausos: gerou um espelho do nosso tempo, onde a retórica da paz e humanidade foi contestada nas imagens e no silêncio da transmissão. No seu perfil do Instagram, o artista escreveu: “Paz? Harmonia? Umanità? Ieri non le ho sentite…”, acrescentando que sentiu, sim, o calor das mensagens de apoio enviadas por pessoas comuns. Essa resposta pública, em três línguas, tornou‑se o ponto de tensão entre solidariedade popular e críticas institucionais.
Ghali — nome artístico de Ghali Amdouni, nascido em 1993 em Milão de pais tunisinos, figura cuja carreira entre trap, rap e melodias pop já questionou fronteiras e memórias — reclamou que não lhe foi permitido entoar o hino italiano, publicação que provocou a primeira onda de controvérsias. O episódio reacendeu debates sobre quem define a interpretação do que é aceitável em eventos nacionais e sobre o papel simbólico do artista num “roteiro oculto da sociedade”.
Do ponto de vista institucional, o ministro do Esporte, Andrea Abodi, tentou neutralizar o conflito afirmando que o cantor não devia usar a cerimônia para manifestar posições políticas, enfatizando o “respeito” como baliza para a transmissão. A reação política foi imediata e polarizada: o Movimento 5 Stelle denunciou tentativas de censura preventiva; a Lega qualificou a escolha como “inopportuna” e chegou a rotular Ghali como “odiatore di Israele”; enquanto Noemi Di Segni, presidente da Unione delle Comunità Ebraiche Italiane, pediu “linhas‑guia” claras sobre o papel do artista em eventos oficiais.
No campo institucional também se somou a acusação de silenciamento: diversos políticos, entre eles Bonelli e Fratoianni (Aliança Verdi e Sinistra), falaram em “censura”; Laura Boldrini criticou o que chamou de “TeleMeloni”; e Pierfrancesco Majordino (PD) usou a expressão “razzismo de Estado” para qualificar omissões da cobertura. Internamente, espectadores e usuários nas redes — especialmente na plataforma X — notaram que a transmissão da Rai não pronunciou o nome do artista nem ofereceu enquadramentos em primeiro plano, alimentando a percepção de apagamento.
Não é a primeira vez que Ghali ocupa o centro de debates políticos e culturais. Conhecido por posições pro‑Palestina, ele já proferiu em Sanremo 2024 um apelo por “stop ao genocídio” em Gaza; seu single de 2024, “Casa mia casa tua”, critica guerras e fronteiras ao evocar bombardeios a hospitais e realidades que ecoam Gaza — letras que geraram desconforto em setores da comunidade judaica. Nas memórias públicas há episódios com forte carga simbólica: o verso contra Matteo Salvini no remix de 2019 e a altercação no estádio San Siro em 2021, quando Ghali gritou contra o então líder político — situação que precisou da intervenção de Paolo Maldini para acalmar os ânimos.
À luz desses eventos, a reação nas redes e entre artistas foi de solidariedade: comentários de apoio, como o de Fiorella Mannoia — “Nós nunca seremos como eles” — e de outros nomes da cena musical, transformaram a narrativa pública num contraponto à narrativa institucional. O que está em jogo não é apenas a trajetória de um artista, mas a forma como um evento internacional — pensado para celebrar — pode revelar fissuras do presente. É como se a cerimônia tivesse oferecido um plano aberto para a encenação das contradições nacionais, e a resposta coletiva tivesse reescrito, por momentos, o roteiro.
Ghali cresceu em Baggio e a periferia milanesa; lançou álbuns de referência como “Album” (2017) e “DNA” (2020), e sua obra segue interrogando identidade, imigração e memória coletiva. O caso Milano‑Cortina mantém acesa a pergunta sobre os limites entre espetáculo, política e memória: quando a transmissão opta pelo silêncio, quem fala em nome da humanidade?






















