Por Chiara Lombardi — Em entrevista longa ao Corriere della Sera, Gerry Scotti reagiu com firmeza às recentes afirmações de Fabrizio Corona veiculadas no último episódio do programa Falsissimo, que o implicavam em supostos relacionamentos com várias Letterine do elenco de Passaparola há cerca de vinte e cinco anos. Scotti definiu as alegações como “simplesmente falsas” e apontou que se trata de revelações presumidas sobre um período da sua vida profissional que não correspondem à verdade.
Com o tom sereno de quem conhece os mecanismos da cena pública, Gerry Scotti lembrou que tem “discreta dimestichezza” com o uso das redes sociais e que, ao longo dos anos, constatou como as verdades e as boas notícias muitas vezes passam despercebidas, enquanto as fake news recebem uma ressonância desproporcional. “As mentiras ditas por razões de lucro têm um impacto ainda maior”, afirmou, sublinhando que além da procura de ganhos econômicos essas invenções alimentam “uma forma de ódio e de maldade inaceitável”.
Entrando no cerne das acusações que o envolvem, Scotti propõe um critério simples e decente: ouvir as próprias envolvidas. “Bastaria perguntar às diretas interessadas”, disse, sugerindo que, se consultadas, as mulheres mencionadas diriam em uníssono que as declarações divulgadas são falsas. A amargura que ele confessa não é apenas pessoal: “ninguém pensou nas garotas”, enfatiza o apresentador de La Ruota della Fortuna.
No seu comentário há uma defesa veemente da dignidade profissional das mulheres que trabalharam como Letterine. Scotti alerta para o tratamento mediático que as reduz a estereótipos — “não são fantoches, nem bonecas de trapo” — e pede respeito. Ele recorda que muitas dessas mulheres hoje têm carreiras próprias, famílias e filhos que podem ser confrontados com falsidades embaraçosas. “Não é justo marcar a experiência profissional delas com uma palavra que soa como estigma”, disse, pedindo um mínimo de sensibilidade ao discutir o passado de pessoas públicas.
Como observadora do presente cultural, vejo nessa controvérsia um espelho do nosso tempo: o roteiro oculto da sociedade transformado em bordão viral, onde a narrativa sensacionalista costuma dominar o eco cultural. A discussão sobre fake news aqui não é só sobre reputações individuais, mas também sobre como as redes sociais reconfiguram memórias coletivas e reescrevem trajetórias profissionais com efeitos que atravessam gerações.
O caso reacende duas questões centrais. Primeiro, a responsabilidade de quem propaga informações sem checá-las, sobretudo quando há benefício econômico envolvido. Segundo, a urgência de proteger a privacidade e a integridade de pessoas que, embora tenham feito parte de um produto televisivo de sucesso como Passaparola, merecem que sua trajetória seja contada com precisão e respeito. Em suma, o episódio é um lembrete de que, no grande roteiro mediático, a verdade frequentemente perde o lugar para a atração do espetáculo — e que essa escolha tem vítimas reais.
Ao reconhecer o fenômeno, Gerry Scotti pede que se volte o olhar para as pessoas reais por trás das manchetes e que se reavalie a ética da exposição pública. É um apelo que ressoa não apenas como defesa pessoal, mas como reflexão sobre o preço cultural de alimentar rumores: a indústria do entretenimento não é um palco sem consequências, mas um cenário de transformação onde os atos de hoje moldam as memórias de amanhã.





















