Por Chiara Lombardi — Em um gesto final que reafirma uma vida construída em dupla, as irmãs Kessler, Alice e Ellen, foram sepultadas juntas em uma cerimônia privada e sem assistência pública, conforme divulgou o jornal Bild. A escolha segue a vontade manifestada pelas artistas de permanecerem unidas “até o fim” — um enredo íntimo que reverbera como um espelho do nosso tempo.
Segundo relatos, o desejo de serem reunidas após a morte já havia sido formalizado. Em abril de 2024, Ellen declarou que o testamento continha instruções claras: as duas urnas deveriam ser depositadas lado a lado, junto à urna da mãe, como símbolo do laço familiar indissolúvel que marcou suas trajetórias.
As irmãs morreram juntas em 17 de novembro, em sua residência em Grunwald, nas proximidades de Munique, tendo optado pelo suicídio assistido. A decisão de terminar a vida de forma conjunta foi descrita como uma extensão do compromisso que manteve suas carreiras e as apresentou como uma mesma presença coreográfica no imaginário público europeu: um refrão de identidade e cumplicidade.
De acordo com Bild, o sepultamento ocorreu sem cerimônia pública e sem convidados, exatamente como havia sido pedido pelas artistas. Em respeito à sua vontade, as urnas foram depositadas em silêncio no cemitério de Grunwald, ao lado da urna da mãe, cumprindo o desejo expresso de “sermos novamente reunidas com nossa amada mamãe”.
Como observadora cultural, esse episódio conjuga várias camadas simbólicas: por um lado, é a confirmação de uma decisão pessoal e juridicamente articulada; por outro, abre uma leitura sobre como figuras públicas que atuaram como espelhos sociais escolhem o fechamento de sua própria narrativa. O ato das Kessler fala tanto de laços familiares quanto de uma estética do fim, que escapa ao sensacionalismo e reivindica intimidade e autonomia.
Em termos sociais, a opção pelo suicídio assistido e pelo sepultamento conjunto lança luz sobre debates contemporâneos: direito à autodeterminação, a forma como a morte é mediada pela lei e pela opinião pública, e a maneira como escolhas íntimas transitam para o domínio simbólico coletivo. É um reframing da morte como eleição existencial, ou, se preferirmos, um último ato de assinatura artística.
O gesto das irmãs — reunir-se novamente à mãe e evitar uma despedida pública — preserva a dimensão privada de sua história, convertendo o fim em um capítulo coerente com a vida que viveram: sincronizada, performática e deliberada. Resta ao público e à história cultural interpretar esse desfecho não como consumo de tragédia, mas como um elemento do roteiro oculto que orientou suas trajetórias.
Enquanto a imprensa relata os fatos, a memória das Kessler permanece complexa: são simultaneamente estrelas do entretenimento e indicadores de uma época que negocia, com intensidade crescente, os termos da autonomia pessoal e do luto compartilhado.





















