Por Chiara Lombardi — Observadora do zeitgeist e crítica cultural.
A participação de Gianni Morandi no Festival de Sanremo, na noite dedicada aos duetos, provocou mais que aplausos: gerou uma pequena turbulência sobre as regras — e sobre a coerência delas. Morandi subiu ao palco ao lado do filho, Tredici Pietro, para cantar a versão de “Vita”, cena que, para muitos, funcionou como um espelho do nosso tempo, misturando memória, família e espetáculo.
Do outro lado desse espelho, porém, estava Alessandro Gassmann, cujo comentário público reacendeu o debate sobre quem pode (ou não) frequentar os bastidores da festa musical italiana. Em suas redes, Gassmann escreveu: “Ah… então não era verdade que quando um cantor está em competição em Sanremo um parente não pode participar do Festival, e sou absolutamente contra, regra sem sentido”. O post, publicado na noite de sexta-feira, foi removido na manhã de sábado — gesto que, por si só, diz algo sobre como administramos a imagem pública hoje.
Gassmann explicou que sua situação havia sido tratada de forma diferente. Ele deveria ter ido ao Festival para apresentar Guerrieri, a série que estreia na Rai1 na segunda-feira, 9 de março, baseada nos romances de Gianrico Carofiglio. No entanto, segundo o ator, foi informado de que não poderia comparecer por ser pai de um cantor em competição. “Serei sinceros: me disseram que eu não podia porque sou pai de um cantor”, disse ele, com a franqueza de quem não tolera regras aplicadas de maneira desigual.
Depois de soltar o que chamou de “um sassolino” — uma pedra no sapato que precisava tirar — Gassmann tentou amenizar com um “vabbè dai, dane-se”, mas não deixou de reafirmar a crítica: “regras NÃO iguais para todos”. A contundência da frase ecoou nas redes, onde o tom direto do ator encontrou tanto apoio quanto contestação.
Entre as respostas, uma veio de Marco Morandi, que comentou com ironia sobre as idas e vindas de sua família no festival: “Também eu pensei que fosse assim! Pensa que eu tento ir há anos, mas sempre tem um motivo pelo qual vai meu pai… agora meu irmão. No ano que vem vamos juntos?! Ps. Bravo Leo”. Gassmann respondeu com leveza cortante: “Caro Marco, eu não canto, não posso ser útil…”. A conversa seguiu em tom coloquial e provocador — parte do roteiro público em que celebridade e intimidade se misturam.
Mais do que um episódio de bastidor, essa pequena controvérsia ilumina um ponto sensível: em grandes espetáculos como Sanremo, a norma oficial muitas vezes coexiste com exceções que só ampliam a percepção de desigualdade. Como espectadoras e espectadores — e como analistas culturais — devemos nos perguntar qual é o roteiro oculto dessas decisões e o que elas dizem sobre a credibilidade das instituições culturais.
Em suma, a noite dos duetos funcionou como microcosmo: um palco onde talento, memória familiar e regras se encontram, revelando o eco cultural de uma indústria que negocia, a cada edição, suas próprias contradições.






















