Por Chiara Lombardi — A neve das montanhas do projeto bienal Pensar como uma montanha, recém‑concluído pela Gamec, derreteu e virou água. Essa passagem de estado é também metáfora e ponto de partida da nova exposição de abertura do ciclo Pedagogia da esperança: Eau, da artista angolana‑portuguesa Ana Silva, em cartaz no Spazio Zero da Gamec até 6 de setembro.
Ao primeiro olhar, os trabalhos impressionam pela sutileza — tecidos finos, bordados minuciosos, cenas que retratam mulheres, crianças e animais. Mas sob a delicadeza do gesto manual pulsa uma denúncia clara e contundente: a escassez de água em Angola. É um convite a olhar o corpo do mundo como um roteiro, onde a beleza estética funciona como espelho do nosso tempo e produz uma crítica civil que não grita, mas persiste.
Simona Bonaldi, presidente da Gamec, lembra que a mostra inaugura um momento de transição institucional: “Nos aproximamos da mudança para a nova sede. Não é só deslocamento espacial, é a capacidade de contribuir para o crescimento da comunidade”. Lorenzo Giusti, diretor da Gamec, amplia o quadro: “No centro do projeto há um Public Program interdisciplinar que ao longo do ano integrará pedagogia, arte e cultura técnico‑científica”. Entre encontros, seminários, mesas redondas e workshops, a instituição pretende construir um circuito de formação e engajamento.
Um detalhe importante da poética de Ana Silva é o princípio da delega — suas obras assumem a dimensão do trabalho coletivo. Muitas mãos participam do bordado: há costureiras locais de Bergamo que, nos meses anteriores à montagem, integraram fisicamente as peças. Essa cooperação transforma o objeto artístico em ponto de contato entre realidades distantes, um reframe da responsabilidade cultural.
Para quem acompanha o programa de perto, há dois compromissos a destacar neste começo de março. No domingo, 1º de março, pela manhã (10h), a Gamec promove o workshop “EmpowerED. Esercizi di disapprendimento decoloniale”. Às 18h, no Auditório da Piazza Libertà, o filósofo da ciência Telmo Pievani encontra Juan Carlos De Martin (Politecnico di Torino) para discutir a questão que atravessa o presente cultural — e as páginas da Time e do Festival de Sanremo: a inteligência artificial. O tema, formulado em tensão, pergunta: “Quem educa quem na era da IA?”
Sergio Gandi, assessor de cultura, encerra a apresentação com um princípio orientador: “A multidisciplinaridade é a diretriz da programação. Este percurso nos atravessa até a nova Gamec, que preparamos com confiança e esperança, evitando dispersões em polêmicas”.
Em Eau, o bordado deixa de ser apenas técnica para se tornar arquivo de memórias e suporte de uma denúncia política. A exposição funciona como um espelho — não apenas refletindo problemas locais, como a crise hídrica angolana, mas projetando uma narrativa mais ampla: a arte como pedagogia, a delicadeza como arma cívica, o fazer coletivo como roteiro oculto de transformação.
Serviço: Eau, Ana Silva. Spazio Zero, Gamec. Abertura: 25 de fevereiro de 2026 — em cartaz até 6 de setembro de 2026. Programação: workshop 01/03, 10h; debate Telmo Pievani e Juan Carlos De Martin, 01/03, 18h (Auditório Piazza Libertà).






















