Por Chiara Lombardi — Em Faenza, o cenário cultural ganhou um novo espelho: a Galleria Marta, inaugurada oficialmente pelo prefeito Massimo Isola, pela diretora do Mic Faenza Claudia Casali e pelos curadores do Archivio Leoni, Giancarlo e Stefano Paggi. A nova sede expositiva permanente consolida um percurso de redescoberta e preservação da obra de Alfonso Leoni, artista que se tornou um farol inquieto da contemporaneidade.
A Galleria Marta nasce como um lugar de referência para o Archivio Leoni, fundado por Marta — esposa de Leoni, falecida em janeiro de 2021 — e hoje gerido por Giancarlo e pelo filho Stefano. A ideia de criar um espaço fixo já vinha sendo pensada por Marta anos atrás, mas só ganhou corpo recentemente, estimulada por um sugestão de Claudia Casali na primavera de 2024: “você deve encontrar um lugar estável para Leoni em Faenza”, disse ela a Paggi. Assim se deu o impulso final para um projeto apoiado pelo Mic Faenza, pelo município de Faenza e pela Associazione Amici della Ceramica e del Mic.
O resultado é uma galeria destinada a acolher pesquisas, objetos, desenhos e peças que revelam a multiplicidade de linguagens praticada por Alfonso Leoni: da cerâmica às superfícies pintadas, da escultura ao design, num inventário que deseja ser tanto arquivo quanto palco — o roteiro oculto que permite reler uma produção que dialoga com o tecido social e com a memória coletiva.
Na trajetória de Leoni, nascido em Faenza em 1941 e falecido em 1980, aos 39 anos, por leucemia, encontra-se o núcleo de uma relação complexa com sua cidade natal — um amor ambíguo, carregado de estímulos e de limitações percebidas, que o empurraram por vezes a buscar outras estradas. Formado no Istituto d’Arte Ballardini, onde também lecionou a partir de 1961, Leoni foi discípulo e colaborador de Biancini, figura determinante em sua afirmação artística.
O Mic Faenza já havia dedicado a Leoni, em 2020, uma grande mostra antológica no quadragésimo ano de sua morte, acompanhada de um extenso trabalho de pesquisa coordenado por Claudia Casali em parceria com o Archivio Leoni. Aquela exposição foi um marco: pela primeira vez, o conjunto da produção do artista foi reunido e analisado sob a lente da sua pluralidade técnica e expressiva.
Hoje, a Galleria Marta surge como prolongamento dessa narrativa institucional e afetiva. O espaço estará aberto ao público em ocasiões especiais — como a próxima edição da feira Argillà — e mediante agendamento, oferecendo visitas e projeções curatorias que conectam o legado de Leoni com públicos contemporâneos.
Do ponto de vista simbólico, a inauguração da galeria funciona como um reframe da memória: transformar o arquivo em lugar vivo é convidar a comunidade a revisitar o passado crítico do ofício da cerâmica e da arte contemporânea, e a perceber nesses objetos o eco cultural de seu tempo. É também um gesto de restituição: devolver a Faenza, à sua cidade e ao seu público, um ponto de encontro onde o trabalho de um artista pode ser lido em profundidade.
Ao observarmos a trajetória de Leoni, vemos mais que um currículo de premiações — com reconhecimentos em concursos como Cervia (1966), Gualdo Tadino (1965, 1966, 1975) e Rimini (1967) —; encontramos um artista cuja obra funciona como um espelho do nosso tempo, capaz de provocar reflexões sobre identidade, memória e técnica. A Galleria Marta pretende ser esse espelho e também um convite: olhar para a obra é começar a interrogar o roteiro oculto da sociedade que a produziu.
Para agendar visitas ou consultar o acervo, o público poderá entrar em contato com o Archivio Leoni ou acompanhar a programação do Mic Faenza e do Comune di Faenza para as próximas aberturas e eventos especiais.





















