Por Chiara Lombardi — Em um depoimento direto e carregado de reflexão cultural, o diretor italiano Gabriele Muccino declarou que não pretende mais trabalhar em Hollywood nem retornar aos Estados Unidos. A afirmação foi feita durante o novo episódio do vodcast da Adnkronos, disponível na íntegra no site e no canal do YouTube, e chega como um manifesto íntimo sobre o que ele identifica como um processo de erosão social e afetivo no cenário americano.
Entre 2006 e 2015, Muccino dirigiu três longas produzidos em Hollywood: La ricerca della felicità (The Pursuit of Happyness), Sette anime (Seven Pounds) e Padri e figlie (Fathers and Daughters). Foram anos de grande visibilidade internacional — ele lembra com nostalgia os primeiros tempos: “era feliz, fazia filmes com Will Smith, tudo dava certo e eu tinha sucessos”. Porém, conforme descreve, o filme mudou de tom quando começou a confrontar o “sistema” e a sentir a falta de laços humanos autênticos.
Hoje, em cartaz com o filme Le cose non dette, lançado nos cinemas no dia 29 de janeiro, Muccino traça um diagnóstico duro: os anos recentes nos Estados Unidos foram “fatigantes e dolorosos”. Para ele, o que testemunhou foi o despontar de “uma civilização pagã” — uma expressão forte que busca traduzir uma sensação de perda de referências e conexões. Nos últimos cinco ou seis anos, diz Muccino, cresceu dentro de si um sofrimento que agora se revela em escala global.
Ao afirmar: “Não, não voltarei jamais. E não voltarei nem à América”, o diretor não faz apenas uma escolha profissional; oferece um comentário sobre um eco cultural que o preocupa. Sua experiência actua como um espelho do nosso tempo: o brilho de estúdios e astro‑celebridades contrasta com uma paisagem social marcada por isolamento, relações frágeis e uma sensação crescente de decadência.
Como observadora, proponho que lemos essa declaração como parte de um roteiro oculto da sociedade contemporânea, onde o êxito formal e a visibilidade midiática convivem com um empobrecimento dos laços sociais. A trajetória de Muccino em Hollywood — do convívio com astros ao desencanto com a atmosfera institucional — oferece um caso paradigmático: a glamourização que ofusca a erosão das formas de convivência.
Para além do gesto pessoal do cineasta, há aqui um convite ao questionamento: o que nos diz essa recusa sobre as narrativas culturais globais? Quando um autor que atravessou o sonho americano declara sua retirada, estamos diante de um sintoma ou de uma mudança de paradigma? A resposta, como em um bom roteiro, pede atenção aos detalhes, paciência para as reviravoltas e sensibilidade para ler o subtexto.
Muccino permanece ativo artisticamente e seu posicionamento público ilumina debates sobre identidade, territorialidade cultural e o papel do cinema como espelho e agente de transformação. Se Hollywood perde um nome que conheceu seu interior, o que ganha a cena italiana e europeia quando esse olhar retorna, mais crítico e mais íntimo, ao seu eixo de origem?
Chiara Lombardi é analista cultural da Espresso Italia. Escreve sobre cinema, comportamento e o impacto social das narrativas contemporâneas.






















