Por Chiara Lombardi — Em uma entrevista afiada e cheia de bom humor, Fulminacci explicou por que voltou ao palco do Sanremo 2026 com a canção “Stupida sfortuna” e revelou detalhes do novo álbum Calcinacci, previsto para 13 de março pela Maciste Dischi/Warner Music Italy. Mais do que competir, ele disse, a ideia é retomar o festival como um exercício de leveza — uma decisão que ecoa como um pequeno reframe num roteiro pessoal de reconstrução.
Com a sua ironia característica, o artista definiu uma meta curiosa: o quinto posto. “Quinto é perfeito”, afirmou, traçando a linha entre a frustração do pódio e a pressão do topo. “Quarto é quase pódio; quinto está no topo cinco e não tem todo o drama do pódio.” Essa escolha traduz uma sensibilidade contemporânea: evitar a grandiosidade do triunfo por uma posição que permita dignidade e humor — quase um espelho do nosso tempo onde o sucesso pode ser calibrado com autenticidade.
Sobre a hipótese de perder, Fulminacci já tem a cena ensaiada: prometeu demonstrar tristeza e decepção em vez de aplausos forçados ao vencedor. “Penso que essa seria uma reação mais honesta”, disse, ironizando a coreografia muitas vezes mecânica do espetáculo público.
O retorno ao palco do Ariston contrasta com sua estreia em 2021, quando a apresentação aconteceu em versão quase simbólica: “era uma edição Covid, com balões no lugar do público — e balões são a minha maior fobia”. Hoje, ele vai com outro espírito: mais alegre, disposto a se divertir e a jogar com a memória televisiva. E sobre o possível Prêmio da Crítica, Fulminacci sorri: acredita que a premiação tende a privilegiar letras mais pesadas. “Minha música fala de sentimentos — e sentimentos, na minha visão, não se submetem à crítica como se fossem ciência”.
Ao diretor artístico Carlo Conti ele apresentou duas canções: a escolhida para o festival e outra que, segundo o cantor, seria mais alinhada com o prêmio de crítica — essa faixa integrará o disco Calcinacci. Para a noite das cover, a opção foi ousada e elegante: dividir o palco com a jornalista Francesca Fagnani em uma releitura de “Parole parole” de Mina. A escolha revela uma aposta na telepresença como memória coletiva, um convite para revisitar a aura televisiva de alto nível dos anos 60 e 70.
Calcinacci nasce de um momento de ruptura pessoal: o fim de um relacionamento importante. “Estou no meio das macerie — os calcinacci são onde algo foi destruído e onde começa a reconstrução”, explica o artista. O disco, produzido por Golden Years, promete uma sonoridade mais minimalista, com menos violão acústico e uma escrita renovada, fruto de novas escutas — entre elas, a redescoberta tardia de Franco Battiato, cuja influência aparece como um filtro sensorial no trabalho.
Sobre as polêmicas envolvendo protestos do Eurovision, Fulminacci evita antecipar posições: “não estou me perguntando agora — pensarei nisso se ganhar”. A meta, por ora, é outra: transformar o palco em uma cena de jogo e cura, mantendo a integridade artística e o humor como bússola. Em sua voz, Sanremo deixa de ser apenas competição: é cenário de transformação, espelho e roteiro onde se reescrevem memórias e se constroem novos começos.






















