Fulminacci foi o protagonista de um momento descontraído e carregado de ironia no programa Domenica In – Speciale Sanremo, apresentado por Mara Venier, no dia seguinte à final do Festival de Sanremo 2026. O cantor romano, que participou do festival com a canção Stupida sfortuna e conquistou o prêmio da crítica Mia Martini, subiu ao sofá do estúdio munido de uma banana — no lugar do microfone — e riu do inevitável uso do playback nas performances televisivas.
Seguindo a tradição que transforma o dia pós-Ariston num pequeno reencontro entre artistas e público, as apresentações em estúdio muitas vezes acontecem em playback por motivos técnicos e de produção. Há quem tente mascarar a artimanha com sinais sutis de canto ao vivo; Fulminacci preferiu a rota do humor e do gesto simbólico. Empunhando a banana enquanto soavam os acordes de Stupida sfortuna, ele deixou claro que aquilo era uma performance consciente do estatuto do espetáculo televisivo.
O gesto, claro, não foi gratuito: a banana também compõe a identidade visual da capa do seu single em Sanremo, um detalhe que conecta imagem e ação numa lógica de reencenação. Em tom brincalhão, o artista justificou a decisão de não cantar ao vivo: “Volevo cantare dal vivo? No, per carità… Ieri sera poi ho perso la voce ad una festa…”. A frase, entre a autodepreciação e a anedota pública, funciona como um pequeno roteiro de evasão diante das expectativas de autenticidade impostas pelo público.
Como observadora desse cenário, cabe perceber que episódios como este atuam como um espelho do nosso tempo: o gesto de Fulminacci é um reframe que questiona a credibilidade performática do entretenimento contemporâneo. Não se trata apenas de humor; é também uma semiótica do viral que expõe o roteiro oculto da sociedade do espetáculo — onde a imagem e o signo frequentemente têm precedência sobre o momento vocal e a literalidade do som.
Ao transformar um objeto cotidiano (a banana) em microfone simbólico, o cantor coloca em cena a tensão entre imagem e autenticidade, entre o dispositivo televisivo e o artista como sujeito. Em termos culturais, é fascinante ver como pequenas subversões performáticas ressoam além do estúdio: criam memórias visuais que se espalham nas redes e reconfiguram, por instantes, a relação entre artista, mídia e plateia.
O episódio também confirma uma leitura maior sobre Sanremo e seus desdobramentos: o festival não é apenas palco de competição musical, mas um laboratório de símbolos que reverberam no tecido social europeu. A escolha de Fulminacci — premiado pela crítica com a canção Stupida sfortuna — de brincar publicamente com o formato televisivo é tanto um aceno para os espectadores quanto uma pequena lição de estilo. Em vez de negar as regras do jogo, ele as ironiza, convidando o público a refletir sobre o que consideramos autêntico em plena era do espetáculo.
Em suma, a imagem de Fulminacci cantando com uma banana no Domenica In permanece: ao mesmo tempo anedota pós-festival e um micro-manifesto sobre performance, imagem e contexto. É o tipo de cena que, como um bom plano de cinema, continua a ecoar muito depois do corte final.






















