Fulminacci chega a Sanremo como um reflexo do nosso tempo: não apenas um artista no palco, mas um narrador que traduz memórias afetivas em canções. Na lista da Sala Stampa ele figura entre os mais tocados — quarto lugar segundo dados da rádio (EarOne) — e ocupa a oitava posição no ranking do Spotify. Em conversa franca nos bastidores, ele descreve a experiência festivaliera como plena: “Sinto que estou vivendo um Sanremo a 100%: Stupida sfortuna foi recebida bem, não me sinto em segundo plano”.
Comparando com 2021, quando participou com Santa Marinella, lembra da sensação de ser “a última roda do carro”, agravada pela edição afetada pela pandemia e pela ausência de público. Hoje, ao contrário, os banhos de público servem como um termômetro para entender não só a dimensão numérica, mas o que permanecerá: “Quero fazer isso para a vida inteira e não ser um foguete que explode e some”, afirma, em tom que é ao mesmo tempo pragmático e ambicioso.
Sobre a canção que leva ao palco, ele conta que Stupida sfortuna nasceu no final de um longo relacionamento, naquele instante híbrido em que lembrança e confusão se misturam. O novo álbum, Calcinacci, tem um marco importante: é o primeiro que escreveu estando solteiro. Falando como um cineasta reescrevendo cenas antigas, ele admite o estranhamento de interpretar ao vivo lembranças que já não vive: “Quando se vai em turnê, de quem você era quando escreveu as músicas já mudou. Talvez devêssemos subestimar um pouco as canções, porque elas ganham vida própria no ouvido de quem as escuta”.
Na noite das cover, a escolha é carregada de semiótica afetiva: Parole parole de Mina, um clássico que dialoga com memória coletiva. O contraponto dramático será a presença de Francesca Fagnani no papel que, historicamente, ficou com Alberto Lupo — uma inversão performática que promete provocar o público. Quando questionado se se vestirá de homem para a performance, Fulminacci sorri e responde “Surpresa…”, deixando o suspense digno de um ato final bem dirigido.
Sobre o convite para estar no programa Belve, conduzido por Fagnani, ele é categórico: não pretende ser convidado como convidado sujeito à devassa da vida pessoal. “Gosto de proteger minha vida privada”, diz, explicando que guarda contatos íntimos como algo precioso que não precisa ser exposto. Essa postura revela um artista que compreende a fronteira entre persona pública e interioridade — um roteiro oculto da sociedade que muitos artistas hoje precisam reescrever.
Na avaliação pessoal de Fagnani, que ele afirma não conhecer profundamente, destaca os predicados: “Sagace, divertida e terna. A admiro; é a figura da TV italiana que mais me intriga e emociona. Sabe ser irónica e crível”. A resposta flerta com uma metáfora cinematográfica — ela é simultaneamente protagonista e coadjuvante das emoções que provoca.
O humor, na sua biografia, surge como cura e herança: “Meus pais sempre brincaram para aliviar. É a arma mais importante que me deram; é um remédio contra o medo”. E, como qualquer performer precavido, ele revela o conteúdo prático de sua mala de turnê: gastroprotetores, magnésio, potássio — um kit anti-males da vida na estrada.
Em modo mais íntimo, fala do “meu eu criança”, do Filippo que sobe ao palco — uma lembrança que se mantém como um fio condutor entre o passado e a cena presente. No palco de Sanremo, entre ecos de Mina e a sagacidade televisiva de Fagnani, Fulminacci oferece mais do que uma canção: propõe um espelho cultural, um pequeno reframe da nossa memória coletiva, onde cada verso é um pedaço de cenário reerguido para nos fazer reconhecer quem fomos e quem nos tornamos.






















