Assinada pela curadoria de Giorgio Calcara em parceria com Grazia Cristina Battiato, a exposição Franco Battiato. Un’altra vita inaugura no MAXXI de Roma no dia 31 de janeiro e permanece até 26 de abril. A mostra é um convite a percorrer o roteiro múltiplo de um artista que foi, simultaneamente, compositor pop, experimentador sonoro, pensador místico e pintor.
Ao entrar no Espaço Extra do Museu Nacional das Artes do Século XXI, o visitante se depara com a narrativa biográfica que remonta à infância do músico nascido em 1945 na Sicília, o jovem que aos 19 anos deixou a ilha em busca de horizontes musicais e desembarcou em Milão. Ali, encontros determinantes — entre eles com Giorgio Gaber — desenharam as primeiras trilhas de uma carreira que cruzaria gêneros e linguagens.
O percurso expositivo cruza fases distintas: a fase experimental dos anos 70 marcada pelo uso pioneiro do sintetizador (o instrumento comprado em Londres que permitiu manipulações inovadoras de frequências e vozes); o apogeu pop dos anos 80, celebrado com discos como La voce del padrone (entre os objetos expostos está inclusive o disco de platina desta obra); e a fase mais tardia, em que a música dialoga com o pensamento místico e com uma prática artística visual intensa.
Entre os objetos-chave da mostra estão a chitarra elétrica de palco, os casacos de astracã do período de Il Cinghiale Bianco, um ensaio fotográfico inédito de 1967, revistas, posters e recordações de turnês. Há também a menção pessoal de mestres contemporâneos: a dedicatória assinada por Stockhausen evidencia o reconhecimento de um percurso de fronteira entre música erudita e eletrônica. Da casa de Milo, às pendências do Etna, chegam livros, pincéis, paleta e uma coleção substancial de quadros e retratos que Battiato costumava doar — apenas os que guardava foram preservados pela família e, agora, pela primeira vez, mostrados ao público.
O título da mostra — que evoca a canção talvez mais desiludida de Orizzonti perduti (1983) — funciona como princípio interpretativo: a vida de Franco Battiato não se encerrou com sua morte em 2021; ela persiste como um legado plural, suscetível de muitas “outras vidas”. A curadoria buscou conter e, ao mesmo tempo, expandir essa complexidade, organizando um percurso que é como um filme em episódios, onde cada sequência ilumina uma faceta distinta do mesmo protagonista.
Há, nesse acervo, uma qualidade cinematográfica: as capas de discos e as fotografias atuam como storyboards; a mistura de sons eletrônicos e vocais manipulados é quase uma trilha sonora que reescreve memória e identidade. A exposição propõe, portanto, não apenas o arquivo de objetos, mas um reframe da biografia — um eco cultural que interroga por que um artista escolhe, ao longo da vida, tantas máscaras e sinceridades.
Para o público, a mostra é uma oportunidade de ler Battiato além do hit, de compreender sua invenção sonora como parte de uma busca espiritual e visual que atravessou décadas. E para a cena cultural, é um lembrete de que as figuras que entraram no imaginário italiano e europeu continuam a oferecer lições sobre reinvenção, identidade e a própria noção de legado artístico.
Franco Battiato. Un’altra vita
MAXXI – Espaço Extra, Roma
De 31 de janeiro a 26 de abril
Curadoria: Giorgio Calcara e Grazia Cristina Battiato





















