Assista a este relato como se fosse um frame recuperado de um arquivo: a história do cinema muitas vezes é também o espelho do nosso tempo. No especial televisivo «Testimoni della Storia – Registi in Guerra» (Canale 5), Roberto Olla traçou o papel crucial de cineastas que, além de fazerem filmes, ajudaram a construir o imaginário americano — aquele relato épico, otimista e universal que projetou a América como terra de liberdade e reinvenção.
Entre os nomes destacados estão John Huston, Frank Capra, John Ford, George Stevens, William Wyler, Alfred Hitchcock, Oliver Stone e Werner Herzog. Mas o panorama se estende ainda mais no tempo e na geografia: Abel Gance, o pioneiro frânces; e, numa ligação com a história da tecnologia cinematográfica, o italiano Luca Comerio e o técnico Attilio Prevost. Comerio foi um dos primeiros diretores a filmar uma guerra do front, enquanto Prevost é lembrado pela invenção da moviola horizontal e pela cinepresa Prevost 35mm — ferramentas que transformaram imagens em prova histórica.
Em 1939-45, durante a Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos recrutou seus melhores cineastas para um projeto de comunicação e propaganda conhecido como “Why We Fight”. John Ford, que já havia criado o Field Photographic Branch na década de 1930, organizou equipes e câmeras para documentar operações decisivas. Para o D-Day, 6 de junho de 1944, a cobertura não foi apenas técnica: tratou-se de convencer aliados e cidadãos do sentido daquela mobilização — libertar a Europa do nazifascismo.
Alfred Hitchcock, por sua vez, em 1945 realizou o documentário Memory of the Camps, que registrou, com enquadramentos diretos e implacáveis, o horror dos campos de concentração. Essas imagens, mais do que ilustrações, se tornaram fontes históricas capazes de moldar memória e consciência coletiva — o cinema como documento, o plano como testemunho.
O que me chamou atenção ao rever esse especial foi perceber como esses diretores foram arquitetos de uma mitopoética americana: não apenas cineastas, mas construtores de narrativas que funcionaram como roteiro oculto da sociedade. Hollywood ampliou o alcance desses mitos por meio do star system, transformando filmes em mapas emocionais que ofereciam um caminho de esperança — a promessa de que, com trabalho e talento, qualquer um poderia reinventar o próprio destino.
Hoje, esse cenário de consolidação simbólica parece deslocado. A figura de Donald Trump e sua retórica anti-europeia foram mencionadas no programa como um contraste evidente: se o presidente atual tivesse governado em 1944, argumenta-se, talvez não tivesse enviado tropas para a Europa, mudando o desfecho moral e político do conflito. Essa hipótese serve como reframe: o que ocorre quando o roteiro coletivo muda e as metáforas nacionais se rompem?
Ao final, resta uma reflexão: o cinema de guerra — dos documentários crus de Comerio e Prevost às narrativas épicas de Ford e Capra — é também um mecanismo de memória. Ele moldou um ideal americano que hoje se vê contestado; e, ao revisitar essas imagens, somos convidados a questionar não só o que aquelas imagens nos mostravam, mas por que queriam nos mostrar exatamente aquilo. O arquivo, então, revela-se como um espelho onde a sociedade se reconhece e se reescreve.
© Chiara Lombardi — La Via Italia






















