Fiorello transformou a última edição de La Pennicanza em um pequeno espetáculo de mistério e desejo cultural. No ar pela Radio2, o apresentador dedicou o coração do programa ao enigmático TonyPitony, um talento fora dos parâmetros comerciais que, segundo palavras de Fiorello, ilumina com genialidade o atual cenário musical italiano.
O encontro aconteceu de modo quase cinematográfico: um artista sem rosto conhecido, letras impossível de classificar e uma ironia que deixa rastros. TonyPitony falou pela primeira vez à RAI sobre a estranheza do sucesso: “Não me rendo conta del successo — e meno male”, disse, revelando estar em Londres lendo um suposto livro intitulado Le 9999 foto dei piedi, obra que, segundo ele mesmo, ainda precisa ser escrita antes de ser lida. É um gesto que parece mais uma cena de metaficção do que uma declaração comum, um roteiro oculto que joga com a ideia de fama como construção performática.
No programa, emergiu também o lado mais lúdico e estratégico dessa relação artística: Fiorello contou que o responsável pela sigla do FantaSanremo foi o senhor Papalina, que apostou na criatividade de TonyPitony. O artista descartou participar do Festival: “Io a Sanremo? No. Ma farà ridere”, disse, ao mesmo tempo em que Fiorello revelou um desejo mais íntimo e simbólico — encerrar a própria trajetória artística com um dueto em cima de My Way ao lado de TonyPitony. “Se io fossi un cantante in gara a Sanremo, ti chiamerei per il duetto nella serata delle cover”, provocou o apresentador, e a queda de cortina foi um dueto real entre os dois, gesto que funcionou como um espelho do nosso tempo: a celebração do silêncio e do mistério numa era de exposição total.
Mas La Pennicanza não foi apenas palco de brincadeiras e provocações estéticas. O programa abriu com um apelo firme e recorrente de Fiorello em favor das comunidades atingidas pelo ciclone Harry, que deixou marcas profundas em regiões do Sul da Itália. O governo destinou 100 milhões de euros para as áreas mais afetadas — Sicília, Sardenha e Calábria —, mas o apresentador questionou se esse valor já é suficiente, pedindo estimativas mais realistas.
Em tom reflexivo, quase como quem assiste a cena final de um filme e busca um desfecho ético, Fiorello citou a ativação de um IBAN pela Região Sicília para doações e convidou o público a contribuir: “Donate quello che potete, anche un euro può fare la differenza”. A solicitação funciona como um reframe da responsabilidade coletiva, lembrando que, por trás das artes e do entretenimento, existe uma economia emocional e material que exige solidariedade.
Ao fim, a transmissão cumpriu dupla função: celebrou a estranheza criativa de TonyPitony e manteve viva a urgência humanitária pós-ciclone Harry. Como observadora do zeitgeist, vejo nesse encontro a semiótica do viral e o eco cultural que mistura performance, enigma e dever cívico — um pequeno roteiro do que somos hoje, projetado no palco radiofônico da Itália.






















