Por Chiara Lombardi — Em um diálogo que soou como um corte dramático no roteiro público, Fiorello lançou um apelo direto a Adriano Celentano para que suba ao palco do Festival de Sanremo. A declaração aconteceu no início da semana durante La Pennicanza, o programa apresentado por Fiorello e Fabrizio Biggio, transmitido de segunda a sexta na Rai Radio2, em RaiPlay e no canal 202 do digital terrestre.
No ar, Fiorello disse: “Eu não sei, Adriano, se você está ouvindo o rádio, mas este país precisa de você, precisa te ver, precisa de tranquilidade e só você pode nos dar isso daquele palco. Não sei se você está nos planos de Conti, mas caso não esteja, eu espero que possa entrar nesses planos porque os italianos te querem! Gostaríamos de Adriano naquele palco!”. A fala, simples e direta, funciona como convocação e como lembrete do papel público que figuras icônicas ainda ocupam na paisagem cultural.
Além do pedido emotivo a Celentano, Fiorello comentou com ironia sobre a guinada nas audiências: depois de 25 anos, C’è Posta per Te teria sido superado na audiência na Rai1 por The Voice Kids, apresentado por Antonella Clerici. “Milagre! Proponho a canonização como Assuntissima Antonella, Madonna das Clerici”, brincou o apresentador — um comentário que mistura humor e análise da mudança de gosto e formatos na televisão contemporânea.
O apelo a Adriano Celentano não é apenas um pedido de espetáculo. Na minha leitura, como observadora do zeitgeist, trata-se de uma necessidade simbólica: num momento em que o palco televisivo funciona como um espelho do nosso tempo, a presença de uma voz tão reconhecível representa uma forma de consolidação coletiva, um momento de reafirmação da memória cultural. Celentano, por sua trajetória e estatuto quase mítico, atua como um agente de reassurance, capaz de traduzir tensões sociais em imagem pública.
Sanremo, mais do que festival, é um palco de narrativa nacional — um cenário de transformação onde o pessoal e o político se entrelaçam. Pedir Celentano para subir ali é pedir uma figura que convoque memória e presença, um refrão que conecte gerações. E, claro, é também uma jogada midiática esperta: o nome de Celentano aciona nostalgia, curiosidade e cobertura imediata, o que transforma o apelo num pequeno fenômeno semiótico.
Por fim, a menção à vitória de The Voice Kids sobre um veterano como C’è Posta per Te sinaliza que o público está em movimento — e que formatos e apresentadores que capturam o imaginário contemporâneo podem reescrever hierarquias históricas da TV italiana. Entre a convocação teatral de Fiorello e a piada sobre santificação de Antonella Clerici, o episódio revela o roteiro oculto da sociedade: como entretenimento e identidade se entrelaçam, transformando cada anúncio em um teste da temperatura cultural.
Se Celentano atender ao apelo, não será apenas um número a mais na escala de um festival: será um momento de catalepsia coletiva, uma cena que unirá memória, espetáculo e a inevitável leitura histórica do que significa, hoje, subir num palco e ser visto. Como em um bom filme, resta acompanhar a sequência — e esperar que a próxima cena esteja à altura do clímax prometido.






















