Por Chiara Lombardi — Em um episódio que funciona como um pequeno espelho do clima cultural que atravessa a Itália, Fiorello voltou a usar a ironia para reposicionar a figura de Andrea Pucci no debate público. Na edição de La Pennicanza (Rai Radio2), Fiorello propôs — em tom de sátira — “o clamoroso monólogo de Pucci se fosse ido ao Sanremo”, levando à caricatura aquilo que muitos já percebiam na superfície do humor do comediante.
O episódio começou com uma confissão telefônica de Carlo Conti a Fiorello: “A minha escolha é per uno che riempie i teatri” — ou, nas entrelinhas, a aposta em quem ainda atrai plateias. Não sabemos com certeza se Pucci realmente “enche os teatros” (talvez sim, enquanto existir um público que ainda ri de piadas sexistas e homofóbicas), nem se a escolha de Conti foi inteiramente autônoma. O que fica claro é o sentido histórico: o humor não é apenas entretenimento, é um roteiro oculto que revela o estado das convenções sociais.
Fiorello encontrou uma estratégia simples e eficaz para apresentar Pucci a quem só o conhece de passagem: depotencializar seu humor, levá-lo ao exagero. Ao encenar o monólogo que supostamente teria ido a Sanremo, o radialista instrumentaliza a caricatura para mostrar como certas piadas soam hoje — um exercício de inevitable desconforto que expõe mais do público do que do alvo.
Na mesma sequência, Fiorello surgia também imitando Ignazio La Russa, questionando em tom irônico: “Pucci lascia Sanremo perché gli hanno dato del fascista e omofobo? Ma come, ti fanno i complimenti e tu abbandoni?” A ironia, aqui, atua como um corte na superfície da fala política, evidenciando o limite entre o riso e a responsabilidade.
Vale lembrar: a ironia é uma manobra linguística perigosa — perigosa para quem a pratica e para quem é atingido por ela. Não é por acaso que uma piada sobre a Lazio proferida por Fiorello gerou repercussões que chegaram até a Borsa, sinalizando que a incompreensão do contexto ultrapassa o círculo íntimo do humorista.
Curiosamente, a voz que hoje mais teorizou sobre ironia nas redes foi Heather Parisi, que saiu em defesa de Pucci e discutiu com Luca Bizzarri a diferença entre sátira e monólogo. É uma pista cultural: a defesa pública revela como o debate sobre humor e ofensa se transformou em cena pública, quase um novo gênero de performance.
O caso, registrado em 12 de fevereiro de 2026, é menos sobre culpar um sujeito e mais sobre ler o sintoma. A estratégia de Fiorello não buscou humilhar por humilhar; foi um reframe — um despojamento da fala que convida o público a reconhecer o que ri, por que ri, e até que ponto o riso conta a história de uma época. Em tempos onde a risada pode tanto enterrar quanto denunciar, este pequeno ato de metalinguagem radiofônica funciona como um convite a observar o roteiro oculto da sociedade.






















