Por Chiara Lombardi — Em um tom que mistura indignação e ironia, Fiorello abriu a edição de hoje do programa La Pennicanza, transmitido pela Rai Radio2, para chamar atenção ao drama provocado pelo ciclone Harry que atingiu a Sicília. “È una tragedia sottostimata. I media ne hanno parlato pochissimo e la situazione è davvero drammatica”, disse o apresentador, num alerta que soa como um espelho do nosso tempo: a urgência de uma catástrofe social que corre o risco de virar notícia fugaz.
Na análise de Fiorello, o impacto econômico e humano é profundo. “A próxima temporada está em risco: ali se vive de turismo! Atividades, serviços comuns, tudo destruído. É preciso agir rápido.” Ele também criticou a presença simbólica de figuras políticas, citando a visita do senador La Russa como gesto insuficiente: “Seria oportuno que outros políticos fossem, lá como em todas as áreas afetadas. Eu repito todo dia: não esqueçamos! Porque nos telejornais a notícia anda, anda… e depois some.”
O apresentador enfatizou que, antes de campanhas particulares, é o Estado que precisa assumir a responsabilidade inicial pela reconstrução: “Atenção também às coletas de fundos: primeiro o Estado se ocupa, depois pensamos no resto.” É uma posição que devolve ao debate público a pergunta clássica do nosso roteiro coletivo: quem segura a cena quando o cenário desaba?
Em seguida, o programa tomou um tom mais leve, na forma de sátira social. Fiorello fez uma atualização sobre a suposta arrecadação em torno de Checco Zalone – brincando com uma campanha fictícia intitulada “Aiutiamo Checco, dona 2 euro al 54321”. “E agora? Chegou a 73 milhões! Obrigado a nós! Continuemos, vamos aos 75 milhões!”. Zalone teria retribuído com emoção: “Grazie Rosario, gli amici si vedono nel momento del bisogno!”, uma cena que, além de cômica, revela a teatralidade dos gestos solidários em rede.
O olhar crítico de Fiorello passou também por Roma, onde a sátira sobre a limpeza urbana virou reflexo social: “Cidade mais suja do mundo… Roma é segunda! Mas temos que mirar o primeiro lugar!”, disse, ironizando a relação entre turistas e percepção da cidade. A natureza urbana — ratos, javalis, gaivotas — virou, em sua fala, um “National Geographic a céu aberto”, um reframing que transforma degradação em espetáculo e nos força a ler o que a cidade diz sobre nós.
Houve ainda espaço para descobrir talentos: Tony Pitony, cantor que ele acompanha, foi elogiado por canções como “Donne Ricche”, “Giovanni” e “Scapezzolate”. Fiorello prometeu empurrar o jovem talento aos palcos e palhetas maiores, num gesto típico do circuito cultural que cria estrelas antes mesmo que os créditos rolem.
Por fim, a conversa tocou nos paradoxos do mundo artístico: citando Gabriel Garko em Colpa dei sensi, onde beija a atriz Safroncik, Fiorello questionou o padrão de interpretação do público sobre sexualidade e atuação — “Se um hetero faz o gay é genial, mas se um gay faz o hetero então não serve? São atores!”, disse, devolvendo à plateia a necessidade de suspender julgamentos e ler performances como construção.
Como crítica cultural, a fala de Fiorello funciona como um roteiro oculto: a cobertura midiática é o corte que decide quais cenas permanecem; a política, muitas vezes, entra em cena para o close rápido; e o cidadão/ espectador fica, fragmentado, entre a indignação e o riso. O que nos resta é acompanhar a reconstrução — na Sicília e nas narrativas — e não deixar que o plano final seja um fade out prematuro.






















