Em uma entrevista sincera ao programa Verissimo, apresentada por Silvia Toffanin, a cantora Fiordaliso abordou com uma mistura de ironia e melancolia a proximidade dos seus 70 anos. A artista, conhecida por sua voz marcante e presença em palco, não fugiu do tema: confessou sentir o peso da idade no corpo, embora a mente pareça resistir a essa contagem — uma resistência que ela transforma em riso, ainda que ácido.
“Os 70 anos eu sinto todos, tenho um pouco mais de cansaço do que o habitual. Minha cabeça não os sente, ela os rejeita”, disse Fiordaliso, resgatando uma honestidade que transita entre a intimidade e o espetáculo. Ao falar sobre fazer “três voltas ao redor da Terra”, ela lança um olhar quase geográfico sobre a vida: uma narrativa de deslocamento, experiências acumuladas e o reconhecimento de que o tempo é um roteiro implacável.
O ponto alto da entrevista foi a sua teoria em forma de analogia culinária. Para ela, a existência assemelha-se a uma pizza: nascemos como uma bolinha que cresce; com o passar dos anos, o pizzaiolo adiciona molho, azeitonas, queijo — e, finalmente, somos colocados na pá. “Eu sou uma pizza na pá e não gosto de ficar aí”, afirmou, com um sorriso e uma pitada de humor corrosivo. Esse humor autorreferencial — o que ela chama de humor negro — funciona como mecanismo de controle diante da ansiedade existencial.
Há algo de cinema nessa imagem: a pizza na pá é um quadro congelado, uma cena que anuncia o clímax de uma narrativa. Como analista cultural, não posso deixar de perceber o efeito desse gesto público. O humor ácido de Fiordaliso funciona como um espelho do nosso tempo — uma forma de reframe que nos convida a pensar sobre a longevidade, a memória e o valor simbólico de envelhecer em público.
Ao mesmo tempo, a declaração carrega uma vulnerabilidade rara em entrevistas de celebridades: o reconhecimento de que “sobram poucos anos” não é apenas um comentário sobre longevidade, é uma constatação que atravessa o privado e o coletivo. Em um cenário europeu onde o envelhecimento da população é pauta recorrente, figuras públicas que externalizam esses medos trazem à tona debates sobre saúde, representação e o lugar do idoso na cultura do espetáculo.
Fiordaliso encerrou o momento com um pedido bem-humorado e levemente desesperado: que o pizzaiolo fosse, por favor, muito lento. É uma pequena permissão para postergar o inevitável, um pedido quase cinematográfico para alongar a cena final. E, nessa mistura de riso e sobriedade, ela nos lembra que o entretenimento raramente é apenas diversão: é também um campo onde se negocia identidade, memória e o próprio tempo.
Em suma, a fala de Fiordaliso em Verissimo é um pequeno manifesto sobre envelhecer em público. Com humor negro e metáforas comestíveis, ela transforma o próprio aniversário em um espelho cultural — um roteiro que desafia a plateia a olhar para além da superfície.






















