Convidada do programa Verissimo, apresentado por Silvia Toffanin, a cantora Fiordaliso falou com sinceridade afiada sobre a aproximação do seu aniversário de 70 anos e sobre as mudanças íntimas que a vida lhe trouxe. A artista, que completa 70 anos no dia 19 de fevereiro, confessou não gostar da data — uma inquietação que ela traduziu em uma metáfora tão italiana quanto profunda: a vida como uma pizza.
“Sou muitos anos e não quero completar 70 anos, porque significa que tenho poucos pela frente”, disse a cantora em tom de humor negro. A explicação veio como um pequeno roteiro visual: ao nascer somos uma bolinha de massa que cresce, o pizzaiolo acrescenta o molho, as azeitonas e por fim a mussarela. Hoje, afirmou Fiordaliso, ela está na pá, pronta para entrar no forno — e espera que o pizzaiolo seja muito lento. O comentário, entre a ironia e o afeto, espelha o seu costume de usar o black humor como forma de lidar com o tempo.
O programa reservou ainda uma surpresa afetiva: a mensagem de aniversário dos seus irmãos. Para a cantora, eles não são apenas parentes, mas uma extensão da sua vitalidade. “Meus irmãos me alongam a vida”, contou, explicando que o pensamento neles a faz querer aproveitar ainda mais os anos que virão. Essa percepção da família como ampliação do eu é um pequeno espelho do nosso tempo: procurar no círculo íntimo um antídoto contra o medo do envelhecer.
Fiordaliso falou também da maternidade precoce. O primeiro filho, Sebastiano, nasceu quando ela tinha 15 anos. “Não estava pronta para ser mãe”, admitiu. Nesse capítulo, a presença dos pais foi decisiva: foram eles que a ajudaram a atravessar uma juventude em que, por muito tempo, foi mais uma irmã mais velha do que mãe. Com o tempo, porém, os papéis se rearranjaram: os confrontos geracionais deram lugar a um afeto mais calmo e a cantora sentiu-se finalmente mãe.
O segundo filho, Paolo, chegou quando ela tinha 30 anos, em um momento em que trabalhava intensamente. Novamente, o apoio familiar foi fundamental. E foi através das relações conjugais de seus filhos que Fiordaliso redescobriu a maternidade estendida: ela confessou ter um vínculo especialmente afetuoso com as noras e se divertiu ao dizer que talvez ame as mulheres que escolheram seus filhos tanto quanto — ou mais — do que os próprios filhos. Em particular, a companheira de Paolo, Giulia, teria ajudado a cantora a dar o passo decisivo rumo à avó que hoje é.
Os netos, Rebecca e Cesare, são presença luminosa nessa narrativa. A adolescente e o bebê de um ano e meio representam a continuidade e a renovação que aliviam o peso simbólico dos 70 anos: encontrar-se avó é, para Fiordaliso, uma nova moldura afetiva que muda o roteiro íntimo.
Como observadora cultural, penso que a declaração da cantora não é apenas confissão pessoal, mas um pequeno manifesto sobre como a sociedade contemporânea enfrenta a passagem do tempo: entre metáforas gastronômicas e humor autodepreciativo, buscamos narrativas que nos permitam integrar os anos sem perder o desejo de ser ativos. Fiordaliso traduz, com elegância e ironia, esse reframe da realidade — e nos convida a olhar além da superfície do aniversário, para o que há de verdadeiramente vivo na família e nas transformações interiores.






















