Por trás da aparente onda de nostalgia — que poderia ser lida como mero saudosismo — floresce um fenômeno cultural mais profundo: os filmes cult estão retornando às salas não só como relíquias, mas como convites a uma experiência coletiva e intergeracional. O que começou como uma série de reapresentações transformou-se num verdadeiro revival que envolve desde os espectadores da primeira hora até os jovens que, pela primeira vez, veem títulos clássicos num projetor de cinema.
O exemplo imediato no calendário é simbólico: para o Dia dos Namorados, estão de volta às telas Pretty Woman (nos dias 9, 10, 11 e 14 de fevereiro) e Ghost (apenas em 14 de fevereiro). Mas a programação vai muito além dos românticos de plantão: clássicos como De Volta para o Futuro, Frankenstein Junior, Os Bons Companheiros, Blade Runner e Taxi Driver retornam com força; há também espaço para animes japoneses — de Ken il Guerriero a Lupin III: O Castelo de Cagliostro — e para os filmes-concerto de ícones como Pink Floyd e Led Zeppelin.
Esses eventos mostram que o público busca mais do que o filme em si: procura a experiência, a partilha, a sensação singular que somente a sala proporciona. Em muitos casos, as projeções vêm acompanhadas de ações especiais: para a reapresentação de Top Gun, o público foi convidado a vestir-se com peças inspiradas no filme, como os tradicionais óculos de aviador. E no retorno de Mamma ho perso l’aereo (Esqueceram de Mim), o chamamento foi para que os espectadores exibissem seus melhores suéteres natalinos.
“A TV é solitária, a sala é partilha. Repetir as falas junto com outros, rir junto, emocionar-se: isso cria um vínculo que vai além da projeção simples”, afirma Franco Di Sarro, CEO da Nexo Digital, em entrevista. A empresa converteu essa ideia em método: cada sala organiza eventos temáticos, convidando à participação ativa do público. Títulos como Frankenstein Junior retornam anualmente em ocasiões como Halloween e Carnaval; De Volta para o Futuro tem dias em que reúne cerca de 60 mil espectadores em apenas uma jornada.
Outro motor desse retorno é a restauração técnica: trabalhos de restauração e remasterização em 4K devolveram qualidade visual e sonora a obras históricas, apresentando-as como nunca foram vistas. Para espectadores habituados ao streaming, a sala converte-se num espaço de descoberta — não só para ver um filme, mas para experienciá-lo como evento, com todas as camadas sensoriais que a projeção tradicional oferece.
Enquanto o streaming fragmenta o consumo em bolhas pessoais, essas sessões reaprenderam ao público a liturgia da sala: o escuro compartilhado, o riso coletivo, o comentário pós-exibição que vira conversa de bar. É um reframe do cinema como ritual social — um espelho do nosso tempo em que a cultura pop ressignifica memórias e cria novos mapas afetivos.
Ao voltar às salas, os filmes cult não estão apenas reinstaurando a antiga prática de congregar espectadores; estão escrevendo um roteiro oculto da sociedade contemporânea, onde cada projecção funciona como um pequeno palco de sociabilidade. E nisso reside seu poder: não a simples repetição do passado, mas a reinvenção coletiva do presente.






















