Por Chiara Lombardi — Há momentos em que a herança artística funciona como um espelho do nosso tempo: reflete, distorce, convida a reescrever a narrativa. É esse reframe que Filippo Graziani empreende ao revisitar ascanções do pai, o icônico Ivan Graziani. Aos 45 anos, depois de duas décadas de convívio com a memória familiar e um percurso de resistência às etiquetas, Filippo entrega um gesto afetivo e autoral: o disco ao vivo 80 Buon compleanno Ivan, live in Teramo, registrado no concerto de 29 de agosto na sua cidade natal.
O projeto nasceu de uma necessidade íntima e pública ao mesmo tempo. O dia fatídico — 6 de outubro — seria o 80º aniversário de Ivan Graziani. Filippo antecipou a festa com uma noite onde o tributo virou reencontro. No palco, além do irmão e baterista Tommaso, desfilaram vozes que traçam um mapa geracional e estilístico: de Frankie Hi-Nrg a Mario Biondi, passando pelo jovem herdeiro artístico Lucio Corsi. O que era um evento único transformou-se em tour e agora, em registro para discografia.
Revisitar a obra do pai teve seu preço emocional. Filippo perdeu Ivan aos 15, na virada do ano de 1997 — uma idade em que o roteiro da vida pede conselhos, disputas e até reprimendas. Depois de um início de recusa e um período de deriva, ele optou por reapropiar-se do repertório paterno com delicadeza e sem academismos. “Tive o complexo de Kurt Cobain”, conta: a sensação de incompreensão, a vontade de romper com o rótulo de “filho de”.
A virada veio por vias inesperadas: a arte. Filippo seguiu os passos do pai até Urbino, estudou na escola de arte que também formou Ivan e reencontrou os lugares e amizades que desenham a biografia afetiva do artista. Antes da música, havia o desenho — algo que Ivan fazia com maestria. Os primeiros registros íntimos de Filippo são rabiscos compartilhados com o pai, e é curioso perceber que, na tapeçaria familiar, a música surge como uma camada posterior, mas igualmente transformadora.
Outra imagem que atravessa a entrevista é um refrão pop que virou anedota: “Conheci pelo menos 50 Marta de ‘Lugano Addio’”. Essa frase diz mais do que a multiplicidade de fãs; revela o poder de uma canção de se metamorfosear em espelho social — cada Marta carrega uma leitura, uma memória, uma projeção. Ao lado disso, há também um detalhe contemporâneo: quando jovem, Filippo consumia sobretudo hip hop, gênero que, de maneira surpreendente, atraía também Ivan. Pai e filho, em diferentes idades, compartilhavam escutas, desenhos e, claro, o palco da lembrança.
O álbum ao vivo documenta essa paisagem afetiva sem cair na idolatria. É um exercício de arqueologia sentimental — desenterrar melodias, polir arranjos, permitir que vozes diversas ofereçam novos contornos às canções. Para Filippo, o espetáculo em Teramo não foi apenas uma celebração, mas um ponto de virada: após vinte anos de devotamento, permite-se voltar a criar fora da sombra, com a bagagem transformada em liberdade.
No campo cultural, a iniciativa também funciona como diagnóstico: a cultura popular não é apenas entretenimento; é um roteiro oculto que nos ensina sobre memória, identidade e o eco das gerações. O tributo de Filippo é, portanto, um gesto político e estético — uma tentativa de manter acesa a chama de Ivan Graziani sem aprisioná-la num mausoléu imobilizante.
O disco 80 Buon compleanno Ivan, live in Teramo acaba de sair, e o que permanece é a sensação de ter assistido a um diálogo entre tempos. Filippo reconstrói sem apagar; homenageia sem fossilizar. No fim, a festa que ele deu ao pai foi mais um convite: ouvir outra vez, com atenção, as inúmeras Martas e os contornos plurais de uma obra que segue reverberando.
Ficha rápida:
Álbum: 80 Buon compleanno Ivan, live in Teramo
Concerto: 29 de agosto, Teramo
Participações: Frankie Hi-Nrg, Mario Biondi, Lucio Corsi, Tommaso Graziani






















