Por Chiara Lombardi — Em Sanremo 2026, o palco do Ariston voltou a ser espelho das tensões e dos encontros improváveis que definem o nosso tempo. A colaboração entre Fedez e Marco Masini, agora consolidada com a canção “Male necessario”, surge como um pequeno manifesto sobre a dor transformadora — não uma rendição, mas um atravessamento rumo à consciência.
O duo já havia chamado atenção no Festival de 2025, quando Fedez convidou Masini para a noite das covers e juntos ofereceram uma nova versão de “Bella stronza”. Aquela performance plantou a semente de uma afinidade artística que este ano germinou em uma composição própria. Em termos narrativos, é como se tivéssemos assistido a um reframe: dois perfis sonoros distintos se reconhecendo no mesmo cenário emocional.
Em entrevista ao podcast Pezzi: dentro la musica, apresentado pelos jornalistas Andrea Laffranchi, Luca Dondoni e Paolo Giordano, Fedez sintetizou a ideia central do projeto: “Cada quiete precisa de sua tempestade. Para saborear o doce da vida, é preciso conhecer o amargo”. A frase revela a semiótica do viral — o sofrimento como matéria-prima de sentido.
Para Masini, o conceito de “male necessario” é atravessado por vivências íntimas e históricas: a perda da mãe aos 19 anos e um período profissional marcado por dificuldades de venda que o deixaram em crise. “Foram dois males que vivi. Hoje digo que foram male necessario”, contou, evitando nomear responsáveis, mas entregando o tom de quem transformou traumas em narrativa artística.
Fedez, por sua vez, falou sobre a exposição nas redes sociais e o impacto dos haters: “Aprendi a não ser governado por coisas que não dá para controlar. Vivemos dos julgamentos e criticismos alheios. Não renego minhas amizades, meu passado e meus erros; sou grato por altos e baixos. Muito foi até culpa minha.” É uma reflexão sobre a memória pública e o roteiro oculto da reputação contemporânea.
Em termos de performance, a dupla alcançou as cinco primeiras posições nas duas primeiras noites do festival, e “Male necessario” figurou entre as faixas mais ouvidas nas plataformas de streaming durante os dias do evento. “Estamos muito felizes com a canção e com a forma como a mensagem chegou”, disse Fedez em conferência de imprensa. “Não era previsível uma recepção desse tipo. Acho que aproveitamos este palco ao máximo e não nos recriminamos nada.”
Masini, emocionado, ofereceu uma imagem que parece saída de um roteiro de cinema: vindo de origens humildes — recorda-se de limpar teclados no estúdio de Giancarlo Bigazzi, vendo passar nomes como Mia Martini, Umberto Tozzi e Raf —, agora se vê no topo do Spotify: “Não tenho filhos, senão os faria ouvir e me sentiriam orgulhoso. Depois de 36 anos, aos 61, ser primeiro no Spotify é um milagre. Sou o homem mais feliz do mundo.”
O encontro entre Fedez e Masini é mais do que uma curiosidade do line-up de Sanremo: é um exemplo de como o entretenimento funciona como arquivo emocional coletivo, um eco cultural que transforma memórias privadas em narrativas públicas. Em tempos de polarização e timelines ruidosas, essa união nos recorda que a fragilidade, quando narrada com honestidade, torna-se força.
Data da cobertura: 4 de março de 2026.






















