Euridice Axen confessa de cara: o amor por Marilyn Monroe é absoluto. Não se trata apenas de admiração de fã — é um desejo antigo, um roteiro íntimo que finalmente encontra a cena. É com esse tom quase confessional que a atriz romana se aproxima do papel de Sugar/Marilyn na versão teatral de A qualcuno piace caldo, obra clássica de Billy Wilder que estreou no cinema em 1959 e chega ao palco em primeira nacional no dia 6 de fevereiro no Teatro Duse, em Bolonha, sob a direção de Geppy Gleijeses.
No palco, Axen encontrará Giulio Corso e Gianluca Ferrato nos papéis que nos lembram Tony Curtis e Jack Lemmon. Para Gleijeses, adaptar um filme tão icônico é “um título que faz tremer as veias ao pulso” — mas a atriz, filha de duas gerações do teatro e do cinema italiano (a mãe é Eva Axen; o pai, Adalberto Maria Merli), encara o desafio com a serenidade de quem já lidou com personagens pesados e comparações incômodas.
Axen não é estranha a papéis que dialogam com mitos e escândalos: foi Moana Pozzi em Settimo senso, de Ruggero Cappuccio, e interpretou Raffaella Pavone Lanzetti — papel que ficou famoso na voz de Mariangela Melato — em Travolti da un insolito destino, dirigido por Marcello Cotugno. Agora, a iconografia feminina por excelência pousa sobre ela.
“Da um tempo para cá acontece comigo algo especial: expresso um desejo e ele se realiza”, conta, quase como se narrasse um pequeno enredo autobiográfico. Axen revela que aceitou o convite “de impulso, com um sim incondicional”, mas que em seguida veio o escrúpulo — a pergunta que todo ator enfrenta quando se depara com um papel de vulto: interpretar a personagem do filme ou encarnar a própria figura histórica?
“Escolhi interpretar Marilyn”, diz Axen. “O que torna o personagem maravilhoso é a sua interpretação: o candor, o espanto, a ingenuidade e a ausência de malícia que Marilyn lhe deu. Ela construiu uma mulher que fala como uma ambiciosa social, à procura de um milionário, mas que na verdade deseja apaixonar-se por alguém que a cuide. Uma mulher-troféu para amar, que sonha com um príncipe encantado.”
Num momento mais íntimo, a atriz assume que também já desejou, em algum ponto da vida, ouvir um “Fica tranquila, eu cuido de você”. “Não veio — e agora nem desejo mais isso”, confessa, revelando uma virada pessoal. E volta ao ponto que a move: a identificação com a vulnerabilidade de Marilyn Monroe. “A sua fragilidade me devasta e me parece semelhante”, afirma Axen, traçando uma ponte entre a fábula pública da estrela e um eco emocional privado.
Como observadora cultural, gosto de pensar na escolha de Axen como um pequeno reframe da imagem de Marilyn: não apenas o lustre da fama, mas o roteiro oculto da sociedade que transformou uma mulher em espelho dos desejos masculinos e uma projeção de inseguranças coletivas. No teatro, essa semiótica ganha corpo — e o risco e a beleza do palco é justamente permitir que o público reconstrua o mito enquanto o vê respirando de perto.
Dirigir uma transposição teatral de um filme tão icônico pede economia e audácia: manter o brilho das cenas originais enquanto se cria um novo ponto de vista. Gleijeses, ao convocar Axen, Corso e Ferrato, parece buscar exatamente isso — um equilíbrio entre reverência e reinvenção. A estreia no Duse será, portanto, muito mais do que uma homenagem: será um espelho do nosso tempo, onde a figura de Marilyn funciona como lente para observar desejos, poder, fragilidade e a forma como construímos heróis e objetos de desejo.
Para quem acompanha a carreira de Axen, o encontro com Marilyn não é um fim, mas um movimento cíclico: sonhos que se tornam cena, papéis que retornam como reflexos do que já vivemos e do que ainda queremos encenar. É esse o roteiro oculto que eu, como analista cultural, anseio ver desenrolar no palco.






















