Por Chiara Lombardi — Em tempos em que a esfera pública parece escrita por roteiristas de conflito, é curioso — e reconfortante — observar como gestos mínimos voltam a ganhar significado. O quarteto turinês Eugenio in Via Di Gioia encontrou na delicadeza a sua forma de resistência: com o novo single “Facciamo a metà” e as suas já célebres serenate su richiesta, a banda transformou uma canção em acontecimento social, viralizando nas paradas e nas timelines de quem busca um pouco de ternura.
“São micro-revoluções que às vezes fazem a diferença”, diz Eugenio Cesaro, voz e porta-voz do grupo. A ideia nasceu como um gesto simples para ilustrar o conceito central do disco “L’amore è tutto”: o amor enquanto soma de ações pequenas, cotidianas e não necessariamente sopradas por holofotes. Começaram com quatro ou cinco serenatas; agora, pedidos chegam de toda a Itália. Eles prometem fazer algumas outras, porém incentivam que as pessoas tomem a iniciativa sozinhas — porque, como lembra Cesaro, “muitas gotas podem gerar uma onda”.
O sucesso de “Facciamo a metà” se reflete nas plataformas: o single ocupa semanas na viral chart do Spotify e, inadvertidamente, virou também uma canção-ninar para o filho recém-nascido do cantor — uma informação que revela um outro eixo da narrativa, aquele em que a arte e a vida se espelham. Cesaro fala com humor e afeto das novas aprendizagens: o bebê, com três meses, tem sido mestre de paciência, observação e escuta — um verdadeiro reframe da rotina.
Há nisso um eco cultural: quando músicos e figuras públicas vivem decisões pessoais em público, a cena deixa de ser só entretenimento e passa a funcionar como um espelho do nosso tempo, onde a intimidade convive com o espetáculo. Cesaro confessa também a cumplicidade com Riccardo Zanotti, dos Pinguini Tattici Nucleari — outro recém-pai — com quem troca fotos, dicas e noites sem dormir. “Nossos filhos ainda não se conheceram, mas quem sabe um dia façam uma banda juntos”, brinca.
Para os Eugenio in Via Di Gioia, “Facciamo a metà” fecha um capítulo e abre outro — “como se fosse uma ponte”, ele afirma. Novas canções estão em andamento, há planos de concertos após o verão e a possibilidade de 2026 ser o ano ideal para pensar em Sanremo. Trata-se, portanto, de um movimento cuidadoso: o grupo não busca episódios isolados, mas a construção contínua de um repertório que dialogue com o presente.
Como observadora da cena cultural, vejo na escolha das serenatas um gesto semiológico: não é apenas o ato romântico em si, mas a estratégia comunicativa que traduz uma ideia maior — a de que o amor, reduzido às suas manifestações mais palpáveis, pode ser uma forma de intervenção social. Em outras palavras, o que parece anedótico tem potencial de se transformar em narrativa coletiva.
Se uma serenata não muda o mundo inteira, talvez ela plante sementes — e, diante de um cenário polarizado, esses pequenos impulsos podem ser o início de uma onda que insiste em devolver humanidade ao cotidiano.






















