Eros Ramazzotti segue em uma jornada que é ao mesmo tempo espetáculo e espelho do nosso tempo: um vasto turnê com 85 datas em 30 países, que o manterá na estrada até meados de 2027. O artista desembarca no verão nos estádios italianos — a partir de 6 de junho, com paradas confirmadas em Udine, Milano (San Siro), Napoli, Roma (Olimpico), Messina, Bari e Torino (Allianz) — numa ambição comercial que mira 1 milhão de ingressos, com cerca de 700 mil vendidos até agora.
Em Copenhague, na Royal Arena, palco de uma das primeiras paradas, a crítica de bastidor já dizia respeito à autenticidade do show: “Playback perfeito. Autotune perfeito. A posto”, brincou Eros ao encerrar o soundcheck — e logo depois se entregou a uma longa jam com a banda, improvisando sobre um tema blues. A escolha é deliberada: Eros reforça que cresceu tocando e que, apesar da migração para o pop que alcança plateias maiores, a essência permanece. São nove músicos e três coristas em cena, e ele garante que se toca “o 98% do que se ouve, nada de bases prontas”.
O concerto na Royal Arena recebeu cerca de 12 mil pessoas — em grande parte públicos locais e emigrados italianos — e se desenrolou em duas horas exatas, com 22 canções. Foi uma lição de setlist para artistas que, segundo Eros, “sbrodolano” sem repertório à altura. A observação vai ao âmago do debate sobre a música contemporânea: “Não é fácil escrever como se fazia anos atrás. O piattume é geral; uma bela canção hoje tem menos chances de deixar a mesma marca.”
No roteiro do show, há também momentos de intimidade cuidadosamente editados: foram exibidos trechos filmados com os filhos de Eros, pequenas cápsulas familiares que humanizam o espetáculo e o aproximam de quem está longe. Entre as escolhas artísticas, surgem tributos a grandes referências — homenagens a Dalla e a Marley — que colocam o concerto num território onde memória e repertório popular se cruzam como numa trilha sonora coletiva.
O primeiro tema em cena foi “Taxi Story”, precedido por um monólogo reflexivo sobre o sentido da vida — um refrão existencial que funciona como prólogo para a setlist. O cenário, no centro do palco, é dominado por uma passarela inclinada, com percursos entrelaçados que lembram uma hélice de DNA ou a silhueta de um escorpião — seu signo zodiacal. Eros usa esse elemento de cena com parcimônia; prefere, muitas vezes, quebrar as barreiras e descer até as primeiras filas para beijos, abraços e selfies. “Aqui eu consigo; na Itália eu não daria conta”, admitiu, numa confissão sobre o calor do público local e a logística dos grandes estádios.
A banda funciona como uma máquina sonora: as coristas assumem papéis que substituem convidados internacionais — lembrando vozes como Anastacia, Patsy Kensit e Cher — e para “L’aurora” foi utilizada a presença gravada da voz de Alicia Keys, compondo uma continuidade entre o ao vivo e o arranjo produzido. Esses artifícios permitem homenagens e colaborações sem comprometer a organicidade do espetáculo.
Sobre o Festival de Sanremo, que o revelou em 1984 e para o qual foi recentemente convidado como convidado especial, Eros fez observações calibradas: o tema de Sal da Vinci lhe parece com um arranjo retrô, um vintage que não reflete, segundo ele, o panorama italiano contemporâneo, onde existem propostas de maior densidade musical. Elogiou Sayf como talento promissor, afirmou acreditar que ele se sairá bem, e lembrou de uma parceria ainda inédita com Serena Brancale. Citou também Marco Masini com respeito, destacando seu papel na cena e sua contribuição artística.
O que fica desse espetáculo na estrada é mais que repertório e produção: é um exercício de presença e diálogo com a plateia, um reframe do papel do artista num cenário de transformação. Entre improvisos, vídeos domésticos, tributos e críticas à uniformização musical, o show de Eros se afirma como um roteiro oculto da sociedade que privilegia a experiência do ao vivo — um convite a ouvir com atenção, além do ruído.






















