Por Chiara Lombardi — Em um movimento que parece costurar dois universos sonoros e culturais, Eros Ramazzotti e Alicia Keys vão subir juntos, pela primeira vez ao vivo, no palco do Teatro Ariston durante a terceira noite do Sanremo 2026. O anúncio foi feito pelo diretor artístico Carlo Conti ao vivo no Tg1 das 20h, num tom que mesclou orgulho institucional e a expectativa de um encontro que já nasce como um momento simbólico.
Conti, brincando com a seriedade do momento — “indosso a jaqueta esta noite porque o anúncio é de aqueles importantes” —, reforçou também o caráter ceremonial que envolve o festival: amanhã haverá a recepção no Quirinale pelo presidente Sergio Mattarella, que receberá Conti, a co-condutora Laura Pausini e os 30 Big do festival. É um gesto que, mais do que protocolo, funciona como um espelho do peso cultural que o Sanremo ainda exerce sobre a música italiana e sua projeção internacional.
Musicalmente, a colaboração tem raízes recentes: Alicia Keys reinterpreta e produziu um dueto com Eros Ramazzotti para a canção “L’aurora”, numa versão disponível em italiano e espanhol, incluída em Una Storia Importante, o álbum mais recente de Eros lançado em novembro. A gravação transforma uma das faixas mais íntimas do repertório de Eros num diálogo vocal que ilumina nuances novas — como se o roteiro da canção tivesse sido reescrito sob outra luz.
O reencontro ao vivo no Ariston será também uma espécie de retorno às origens para ambos: para Eros, que celebra quatro décadas de trajetória desde a vitória com “Adesso Tu” e que inicia sua nova turnê mundial, o Una Storia Importante World Tour, com estreia em 14 de fevereiro em Paris e um retorno excepcional ao Ariston em 26 de fevereiro; e para Alicia, que trará consigo a narrativa pessoal de suas raízes italianas, lembrando os antepassados sicilianos que compõem sua memória familiar.
É importante ressaltar os perfis complementares: Alicia Keys, com 17 prêmios Grammy, é muito mais que uma cantora — é compositora, produtora, empreendedora cultural e ativista —; Eros Ramazzotti, com 16 álbuns de estúdio, tours sold out e números globais que ultrapassam 80 milhões de discos vendidos e bilhões de streams, é um dos artistas italianos de maior alcance internacional. Juntos, no palco de Sanremo 2026, eles prometem não apenas um acontecimento musical, mas um instante que reverbera como um eco cultural: a música popular atuando como uma lente sobre identidade, memória e circulação transnacional.
Ver Eros e Alicia dialogando em “L’aurora” ao vivo será, portanto, mais do que presenciar um encontro de vozes — será observar um pequeno reframe da história da canção, onde passado e presente se tocam. No contexto do festival, essa estreia mundial pode ser lida como um gesto simbólico sobre as direções futuras da música italiana em relação ao cenário global: um roteiro onde colaboração e herança caminham lado a lado.
Fique atento: a terceira noite do festival (quinta-feira) deverá reservar este momento já inscrito como um dos episódios mais comentados da edição. Para quem vê no entretenimento um reflexo do nosso tempo, é uma cena que convida à observação: por que duas vozes tão distintas se encontram agora? E o que esse encontro diz sobre as narrativas que escolhemos celebrar?






















