Por Chiara Lombardi — Em um diálogo que mistura o calor de uma cafeteria milanesa e a precisão de um roteiro bem escrito, Ernia se abre sobre o atual momento da carreira e da vida pessoal. O rapper, nascido Matteo Professione, vive a continuidade de um ciclo de sucesso: o álbum Per Soldi e Per Amore permanece no topo das paradas há quase cinco meses, e ele se prepara para o tour nos palazzetti em março.
“É maravilhoso”, conta o artista, ao comentar a longevidade do projeto. Em um mercado onde muitos lançamentos se sobrepõem, a permanência do disco indica que “o álbum trabalha a longo prazo”: um eco cultural que não se limita ao instante viral, mas que se instala no tempo. Essa resistência nas paradas é acompanhada por faixas íntimas, como o single Berlino, dedicado à irmã — uma escolha tão discreta que ele brinca sobre a reação familiar: nenhum protesto público, um pequeno triunfo para quem é “low profile”.
Quanto ao palco mais controverso da música italiana, o Teatro Ariston de Sanremo, Ernia mantém a porta entreaberta. Não é um ‘não’ definitivo, mas um exercício de timing. Sanremo, descreve, é “uma experiência muito imersiva, uma semana no tritacarne”, e ele prefere entrar quando se sentir verdadeiramente pronto. A decisão revela algo que vai além da fobia do estardalhaço: é uma escolha de postura artística, um refrão que pede coerência com o estado de espírito.
O maior giro de cena, no entanto, veio da vida privada. Em julho, nasceu sua filha Sveva, que transformou prioridades e deu nova forma ao roteiro cotidiano. “A prioridade agora é voltar para casa logo, porque lá tem ela”, confessa, com humor e ternura: um artista que, entre estúdios e calendários de shows, redescobre a centralidade do lar. A paternidade não apagou sua ambição; antes, reorganizou-a.
Para o tour nos palazzetti, Ernia promete surpresas: músicas que não interpreta há uma década e um esforço específico para que convidados não se limitem a Milão, mas circulem pelas cidades do circuito. É uma estratégia que fala de responsabilidade coletiva — levar o espetáculo para além do epicentro cultural, ampliando a câmara de ressonância.
Com uma trajetória de mais de dez anos, marcada por 43 discos de platina e 22 de ouro, Ernia também dirige um conselho aos mais jovens da cena: a carreira é maratona, não apenas sprint. É um recado que soa como um reframe da realidade para aqueles que buscam resultados imediatos — a semiótica do sucesso pede paciência e coerência.
Disponível no vodcast da Adnkronos, o depoimento de Ernia é menos um release promocional e mais um espelho do nosso tempo: um artista que equilibra fama, invenção e responsabilidade familiar, lembrando que, no roteiro da vida pública, o timing e o desejo de voltar para casa ainda comandam a narrativa.






















