Por Chiara Lombardi — Em cena, o último ato de um roteiro que quis ser épico mas, por instantes, soou como festa de vila. A cerimônia de encerramento das Olimpíadas Milano‑Cortina em Verona tentou costurar esporte, arte e identidade nacional sob o título “Beauty in Action”. Houve momentos de pura intensidade — e outros que revelaram o roteiro oculto da produção cultural contemporânea.
A Arena de Verona, sempre majestosa como um grand finale operístico, ocupou o parterre inteiro com um palco desenhado como os círculos que se formam quando uma gota toca a água — metáfora direta para um evento que queria provocar reverberações. Em tribuna, o governo quase completo; no palco, atletas e artistas desfilaram entre homenagens à música lírica e à pop.
Os estandartes foram carregados por Davide Ghiotto e Lisa Vittozzi, houve a passagem de bastão simbólica para French Alps 2030 e o rito final dos braseiros sendo extintos. Tudo isso encerrou formalmente os dias de competição. Mas, como todo bom filme que se permite um epílogo, a história começa de verdade quando as luzes se apagam.
Quem assinou a direção do espetáculo foi a produtora Filmmaster, já conhecida por grandes campanhas publicitárias e agora também por eventos ao vivo. Quando Francesco René Pannofino fingiu dirigir a cerimônia, senti o tal efeito «Boris»: uma ironia cínica que denuncia improvisos e uma certa pose de “bastou aparecer”. A impressão deixada em vários momentos foi a de uma orquestrina de resort tocando sucessos de repertório, um arranjo seguro porém previsível.
Contra a previsibilidade, houve vários pontos altos: o discurso de Giovanni Malagò; a coreografia de Roberto Bolle, que trouxe elegância e precisão; os retratos de figuras como Andrea Delogu, Deborah Compagnoni, Davide Oldani, Paolo Fresu e o prefeito Damiano Tommasi; e, claro, Achille Lauro, que catalisa olhares e provocações. Também foi emocionante rever a histórica estafeta do esqui de fundo masculino de Lillehammer — um momento que ecoa a memória esportiva como filme‑fonte.
Na transmissão, a combinação de vozes tentou modular a ação: Auro Bulbarelli, sempre pronto a provocar, a anfitriã Cecilia Gasdia e o eficiente Fabio Genovesi. Notou‑se, contudo, que aprenderam o valor do silêncio — às vezes, não dizer nada é a melhor edição.
Se a direção artística teve acertos, o sentimento geral remeteu a um festival local que alternava entusiasmo genuíno e receitas prontas. A crítica maior, porém, recai sobre a emissora: a Rai parece lidar com problemas que não se esgotam em nomes individuais; o diagnóstico é quase estrutural. Os «Petrecca» do sistema são muitos, e a qualidade pede uma revisão de roteiro.
No limite, a cerimônia foi um espelho do nosso tempo: ao mesmo tempo celebração e mise en scène, memória e espetáculo — um mosaico que revela como o entretenimento contemporâneo continua a reescrever a identidade pública. Aconteça o que acontecer, a imagem que fica na retina é de uma plateia que quer acreditar no sublime, mesmo quando o cenário insiste em repetir fórmulas. E isso, por si só, já é um insight cultural a ser observado com curiosidade sofisticada.






















